Crítica: The Handmaiden

Por Matheus Petris

 

Direção: Chan-Wook Park

País: Coréia do Sul

Ano: 2016

Elenco: Min-hee Kim, Kim Tae-ri, Jung-woo Ha, Jin-woong Jo, So-ri Moon

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the-handmaidenO clima de tensão paira em praticamente todos os filmes de Chan-Wook Park – isso incluí seus curtas (Assim como as surpresas que nos são quase sempre apresentadas). Em The Handmaiden (Ah-ga-ssi), não é diferente. A similaridade entre seus filmes não é nem um pouco negativo, pelo contrário, apenas enfatiza seu cinema autoral. Uma outra constante em seus filmes são as mais variadas movimentações de câmera, que em determinados momentos substituem o tradicional plano/contra-plano, imprimindo uma tensão ainda maior em alguns diálogos que também podem soar dúbios.

Chan-Wook transporta a obra de Sarah Waters a um período conturbado da Coréia, onde o país estava sob domínio Japonês.  Sendo também um período fortemente político. A ingenuidade aparente da protagonista, remete a uma criação puramente aristocrática na qual ela não teve possibilidades de conhecer o mundo real. Trancafiada em meio a livros e se vendo obrigada a exclusivamente se dedicar ao “estudo”. De nada ela parece saber, pois seu treino era focado em um único objetivo. Contrapondo a aristocracia, a criada é o ponto de ignição das mudanças que ali irão ocorrer. Um simples diálogo consegue descrever a sensação de aprisionamento em que vive à protagonista, ao oferecer um de seus calçados, ela fala: “Pode escolher, tenho muitos. Não fará falta, os passos dados são sempre os mesmos. “.

A sensação de enclausuramento e impotência é metaforicamente retratada pela direção e fotografia, em variados momentos à câmera ou os personagens estão através de vidros ou janelas, apenas na função de voyeur, como mero espectador que nada pode fazer. Inclusive, alguns dos objetos em cena estão presos em caixas de vidros, o que intensifica ainda mais essas sensações. Se em determinado momento um destes objetos é destruído, é um momento libertário, e a utilização do contra-plongeé apenas demonstra a amplitude de tal ato. Ângulo este, que junto ao plongeé é utilizado por Chan-Wook repetidamente, e em muitos de seus filmes, desde ‘Judgement’ por exemplo, e sempre com uma função narrativa.

O amor e o sexo são pontos fundamentais para o desenvolvimento e argumentação acerca do tema tratado, se a aproximação delas ocorre de modo natural. Por mais que ambas estivessem ali com um objetivo claro, os sentimentos geralmente falam mais alto – e em bom tom. As cenas de sexo não são gratuitas, à delicadeza com que são tratadas conseguem nos transmitir muito das personagens, elas naquele momento se livram de um fardo, juntas execram a sociedade patriarcal em que vivem, na qual foram criadas para seguir todas às regras impostas. E os personagens masculinos neste filme estão justamente ali para isso, ditar regras e tentar comandá-las. A libertação é visual, e intensificada de diversos ângulos. A sensação de liberdade também é elucidada na destruição de outros objetos que corroeram a infância daquela que ali se criou.

Ao sermos transportados em visões subjetivas, que incluem algumas movimentações de câmera, temos noção daquilo que elas sofrem. Sofrimento esse, que é demonstrado dos dois lados, e literalmente de ângulos diferentes. A construção desses dois atos e a forma de como eles funcionam, se assemelha a um pouco daquilo que Akira Kurosawa fez em Rashomon – porém com três atos –, filme esse que é tido como o filme pioneiro nessa forma de roteiro.

A violência sempre esteve presente nos filmes de Chan-Wook Park, e neste não poderia ser diferente. Apesar de aqui ela ser usada de forma muito diferente da usual, e inclusive contraditória via de “regra”. Ele, que ficou conhecido pela famigerada trilogia da vingança, aqui usa a vingança como consequência trágica.  Os aspectos visuais das cenas de violência, são parecidas com a de sua obra, visualmente impactantes e sem poupar o espectador de nada, por mais que aqui seja em uma medida muito menor do que de costume, até porque este não era o objetivo deste filme. O ambiente fechado e a pouca iluminação, rodeada apenas pela fumaça do cigarro, nos afligem do começo ao fim. Cena está que foi fotografada pelo seu parceiro Chung-hoon Chung, que também foi diretor de fotografia de diversos outros filmes de sucesso, tal como Oldboy e até o hollywoodiano Stoker.

Um dos objetos mais enfatizados durante o filme, teve função dual, ao ser utilizado como instrumento de tortura, ele também teve uma função com destino ao prazer e, finalmente, pode libertar quem o empunha. Mesmo que sendo pessoas diferentes.

★★★★★

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