Friedrich Nietzsche e “O Cavalo de Turim”

Por Leonardo Vaz

Algumas obras cinematográficas possuem tamanha força artística que nos arrebatam de primeiro instante fazendo abrir uma janela diante de nós na qual podemos contemplar novas perspectivas sobre a existência, vida, relações, etc. Um exemplo desse tipo de obra é “O Cavalo de Turim” ( A Torinói Ló), do cineasta húngaro Béla Tarr. O filme, lançado em 2011, foi o último de Tarr, que possui em seu currículo outras grandes obras como “Sátántangó”, que é considerado por muitos como sua obra-prima, e “A Harmonia Werckmeister”. O que se pretende aqui é apesentar o filme e suas estritas relações com a filosofia, sobretudo com a filosofia de Friedrich Nietzsche.

O título do filme já nos remete ao episódio em que Nietzsche, já há algum tempo debilitado mentalmente, ao passear pela cidade de Turim se depara com a cena de um cavalo, que ao se negar caminhar, começa a ser açoitado por seu dono. Conta-se que ao se deparar com esse episódio Nietzsche corre em direção ao cavalo e o abraça. A partir disso o filósofo alemão perde completamente sua sanidade mental e passa a ser cuidado até o fim de sua vida, em 1900, por sua irmã e mãe. O filme inicia-se em tela preta apenas com uma voz narrando o acontecido entre Nietzsche e o cavalo na cidade de Turim e segue-se para uma longa cena em que mostra um cavalo puxando uma carroça e um cocheiro em um ambiente rural carregado de ventos seguido por uma trilha sonora propositalmente melancólica e repetitiva. Seria esse o cavalo e o cocheiro do episódio acontecido com Nietzsche? Fato curioso é que algumas décadas antes, no livro “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, algo semelhante foi descrito. Assim como Nietzsche, o personagem Raskolnikov vê um cavalo debilitado sendo maltratado e corre para o acalentar. Temos um exemplo de quando a vida imita a arte.

nietzsche

A presença de Nietzsche não se resume a esse início, todo o restante da obra é construído sob o conceito de “eterno retorno”. Na obra “A Gaia Ciência” Nietzsche trata dessa questão fazendo o seguinte questionamento: “E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem — e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira! ’. — Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina! ”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes? ‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”.

Em “O Cavalo de Turim” nos deparamos com uma atônita e monótona rotina de duas pessoas confinadas em uma casa no meio do nada confrontadas com as suas próprias existências. O filme, que é praticamente sem diálogos, consiste em uma sacralizada repetição de atos na vida dos dois protagonistas (pai e filha). Dia após dia a filha levanta e vai ao poço buscar água, em seguida ajuda a arrumar seu pai, posteriormente vão ao celeiro para preparar a carroça e o cavalo, que, no entanto, se nega a comer e a puxar a carroça, os dois desistem e voltam à casa até chegar o momento em que a filha cozinha duas batatas que servirão de almoço aos dois, chega a noite e novamente comem batatas e vão dormir.

Um dos pontos fortes da obra é que ela absorve o telespectador e o transporta inconscientemente para o peso da trama. Inicialmente podemos sentir um certo grau de ansiedade, de incomodo, parece que algo vai acontecer e esperamos que realmente algo aconteça para que quebre a monotonia inicial, assim como os dois protagonistas da trama que, de modo semelhante a Estragon e Vladimir que esperam Godot na célebre peça “Esperando Godot” de Beckett, parecem estar confinados à espera de algo. Na metade do filme percebemos que nada vai acontecer e parece que a mesma ideia é percebida pelos protagonistas. Em certo momento eles arrumam todas as coisas e tentam ir embora da velha fazenda, mas, por algum motivo desconhecido, voltam logo depois às suas rotinas de eterno retorno, tal eterno retorno parece ser inescapável, parece uma sina a qual estão condenados pelo demônio que Nietzsche cita.

O eterno retorno é um pensamento que pesa, é abissal e sufocante, pelo qual Zaratustra, na obra de Nietzsche “Assim Falava Zaratustra”, ao ser tomado por ele sucumbe e retorna à consciência após sete dias. Zaratustra, em sua caverna, antes de cair pelos sete dias, desperta de súbito e em seguida lança as seguintes palavras: “De pé, pensamento de abismo, que vens do fundo de mim mesmo… Levanta-te! Levanta-te! Minha voz acabará por te despertar”. “Destapa os tampões dos teus ouvidos! Escuta! Quero ouvir-te! Levanta-te! Levanta-te!” “E quando despertares, espero ficarás acordado para sempre…” “Eu, Zaratustra, o advogado da vida, o advogado da dor, o advogado do Ciclo, sou eu que te chamo, meu pensamento de abismo” (NIETZSCHE, 2007, p.281–82).

O Zaratustra de Nietzsche é tido como o profeta do eterno retorno como bem fica claro na seguinte passagem: “Que teus animais bem sabem quem és, Zaratustra, e o que deves ser: tu és o profeta do Eterno Retorno das coisas. E este é agora o teu destino”. ” (NIETZSCHE, 2007, p.287). E Zaratustra também é o encarregado de abrir o caminho ao Além-Homem (Übermensch), já que é necessário homens que suportem o atormentador eterno retorno, homens que estejam além de si mesmos, o “homem atual” necessita ser superado dando lugar ao homem que não mais necessita de “muletas metafísicas” para suportar e superar a dor e peso da existência, a dor do eterno retorno e da nidificação e inexistência de sentido das coisas já proclamadas por Schopenhauer em seu niilismo negativo. Podemos perceber que para afirmar o retorno de todas as coisas, também se deve afirmar até mesmo aquilo que lhe há de mais tedioso e mesquinho nos homens. É isso que sufoca Zaratustra, o tédio, o fastio pelo homem, e que ele também retorna. Ver o mundo como um eterno vir-a-ser, implica em um eterno torna-se, e nisso se encontra o esforço para ser. Tudo retorna tanto como afirmação, como também negação de si mesma, e isso sufoca aquele que é tomado por esse pensamento, pois a vida vista como dor induz a apiedar-se de si pela vida ser vista como dor, ou um fardo um dos mais pensados. Talvez esse pensamento de abismo somente pode ser expresso como que por um grito que parte da experiência da mais profunda dor, o que nos remete à tela do norueguês Edvard Munch intitulada “O Grito”.

O Grito
“O Grito”, 1893, de Edvard Munch

Podemos ter indícios de tal além-homem no longo diálogo que se inicia quando um senhor vem em busca de Palinca na velha habitação dos protagonistas (talvez uma alusão à fuga da realidade por meio da embriaguez). Incialmente podemos perceber um sentimento misantrópico por parte de tal homem. Ele afirma que a cidade está destruída e a causa foi a humanidade e sua capacidade de julgar (razão), que segundo, ele é a mais horrível das criações. Isso nos direciona imediatamente a grande desilusão em relação à racionalidade, considerada por Freud a quarta grande desilusão da humanidade. No período do iluminismo tinha-se a crença de que quanto mais racionalidade, maior iluminação da razão, consequentemente seria maior o progresso humano que culminaria em bem geral, no entanto toda essa ideia caiu com as duas grandes guerras mundiais nas quais o homem usou todo seu potencial em prol da destruição. Tal concepção de fracasso da racionalidade pode ser bem observada e expressa na arte surrealista de Dalí que busca a quebra da racionalidade e a representação do inconsciente como a forma de dar vazão à sua arte. Na continuação do diálogo, o homem, assim como Nietzsche, anuncia a morte de Deus. Ele diz que os grandes, excelentes e nobres de início tiveram apenas que aceitar que não há nenhuma entidade divina, mas não foram capazes de entender isso, permaneceram perplexos, mas não resignados, até que uma centelha do cérebro os iluminou e eles entenderam que não há nenhuma entidade divina nem “bem” e “mal”. Parece que aqui ele se refere ao processo que tornou o homem comum em além-Homem (se é que existiu algum Além-homem tal como Nietzsche imaginou). Os grandes, excelentes e nobres tiveram, com o niilismo negativo de Schopenhauer, a ideia de ausência de propósito, de sentido no mundo e com isso aceitaram que não há entidade divina, ideia essa que foi enterrada de vez com o niilismo reativo de Nietzsche que fez com que esse homem compreendesse isso e tivesse o primeiro passo de superação de si em direção ao além-homem, além disso eles compreenderam que não há bem ou mal, que é outro passo em direção ao além-homem quando, na obra “Genealogia da Moral”, Nietzsche, com a ideia de transvaloração dos valores, lança a seguinte questão: sob que condições a humanidade inventou para si os juízos de de “bem” e “mal”? E sendo assim, colocou a própria ideia de valor moral em xeque. É esse o além-homem de Nietzsche, é aquele que compreendeu a morte de Deus, que sabe que não há valores supremos e só ele está além do bem e do mal e é só ele que vai ser capaz de dizer sim ao eterno-retorno.

Nietzsche, com sua compreensão do Eterno-retorno, faz com que nós pensemos se realmente estamos vivendo de forma plena. É no momento que pensamos na possibilidade de que ao morrer retornaríamos ao momento do nascimento e tudo aquilo que fizemos, cada ato, cada detalhe e até a falta de ação que nós tivemos se repetiria pela eternidade é que podemos perceber que a vida é aqui e agora, não é o passado que já foi nem o futuro que não veio, que não existe e pode nem vir a existir já que sempre há a possibilidade da vida se findar a qualquer momento. Estamos felizes nesse exato momento? Fomos felizes durante a nossa vida? E se tudo isso se repetisse infinitas vezes? Esses são questionamentos que podem ser perturbadores e a obra “O Cavalo de Turim” serve de “tela” para nos retratar, expressar, dar voz a essa reflexão que Nietzsche nos deixou.

Referências:

NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Trad. Notas e Posfácio de Paulo C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

_____________ Assim Falava Zaratustra. Trad. Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ, Vozes, 2007. (Col. Textos Filosóficos).

Texto de autoria de Leonardo Vaz permitido pelo autor. Confira o original.

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