Crítica: Capitão Fantástico

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 2016

Direção: Matt Ross

Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Annalise Basso, Samantha Isler, Shree Crooks.

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3200258ab44f4d411d4a87a39ca26454_xlO protagonista de “Capitão Fantástico”, interpretado com maestria por Viggo Mortensen, é realmente fantástico. O personagem funciona como um verdadeiro capitão sobre diversas crianças e adolescentes (seus filhos). Todos eles vivem no interior da floresta, na natureza selvagem, mas não podem ser igualados a seres próximos aos animais.

Tudo bem que eles possuem um sentido muito mais aguçado à caça que a maioria dos habitantes da cidade, mas isso não quer dizer que não saibam tocar instrumentos musicais, falar de literatura ou das ciências da natureza. Nesse ponto, o capitão fantástico é realmente fantástico. O problema é que, por mais educados e cultos as crianças sejam, seus filhos são vistos como aberrações pelos povos urbanizados, pois não sabem o que é uma coca-cola, tampouco o que é um adidas.

Por um lado, não beber refrigerante é ótimo, pois é “água envenenada”, como o próprio capitão diz, mas seria bom que as crianças, tão cultos em diversas áreas, soubessem sobre as coisas banais do mundo, justamente para verem que tudo isso não passa de aspectos fúteis. O adidas, por exemplo, poderia ser relacionado ao consumismo, a coca-cola a um meio de as pessoas fugirem do habitual, dos sucos e da água. A sociedade capitalista possui essa característica, de se reinventar, de comprar. Sabendo disso, diversos questionamentos não passariam pela cabeça das crianças, como os de um dos filhos, que quer ser uma pessoa “normal”.

Elas começam a ser vistas como aberrações quando precisam impedir o funeral da mãe, recém-suicidada. Esta gostaria de ser cremada, mas seus pais, conservadores, não aprovam esse tipo de atitude. Muitas viradas passam a ocorrer a partir do momento em que saem da sua zona de conforto, parecido com o acontece em “O Quarto de Jack”, quando o menino deixa seu “mundo” e passa a ter diversos estranhamentos.

É bom dizer que existem muitas figuras que compõem a família, servindo como um personagem curiosíssimo. Todas as crianças ao lado do capitão fazem parte da personificação do protagonismo, tendo o pai como uma espécie de guia, um co-protagonista. Mesmo havendo diversos personagens, a montagem sabe trabalhar os cortes em tempos reservados para cada um deles, formando uma dinâmica fílmica enorme, flui num ritmo que tem a cara da proposta.

Além disso, deve-se destacar o roteiro, cativante na criação dos personagens e preciso nos momentos para causar humor e drama. Como é uma comédia dramática, a obra precisa saber ligar as fronteiras entre os dois momentos. Mortensen absorve o lado dramático, ainda mais quando confrontado pelo bom Frank Langella, o pai da mulher recém-suicidada. Já o lado cômico acontece quando as crianças entram em confronto com a sociedade de valores capitalistas, diferente da educação limitada dos pais urbanos, que os tentam proteger o tempo inteiro das verdades.

O longa-metragem foi vencedor do prêmio Um Certo Olhar em Cannes e teve sua estreia em Sundance, uma prova mínima da importância da película em 2016. A Academia precisa ser justa e indicar, como um meio de reconhecimento, o ator protagonista e o roteiro desta simples, mas curiosa obra, que foge dos estereótipos estéticos e até mesmos dos conteudistas, desbancando com facilidade o parecido e superestimado “Na Natureza Selvagem”, dirigido por Sean Penn.

★★★★☆

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