Helena Ignez, A Mulher de Todos: Extravagância Feminina, Violenta e Debochada

Por Philippe Leão

Irreverente desde o princípio, Helena Ignez levou os pais a loucura ao largar o curso de direito e ingressar em Artes Dramáticas pela Universidade Federal da Bahia. Seu surgimento nos palcos teatrais se da em um momento extremamente vanguardista, de rompimento total com as obras provincianas dominantes. Seu inicio no teatro e esta aura revolucionária, com certeza, marcaria toda a carreira da atriz.


Sua primeira aparição no cinema se deu em O Pátio de Glauber Rocha, diretor que dispensa comentários e que, mais tarde, casaria-se. A vanguarda de Ignez não fixou-se nos palcos e, no

A Familia do Barulho
Helena Ignez em A Familia do Barulho de Júlio Bressane.

Cinema Novo, já marcou seu rosto na história do cinema nacional. Barravento, O Assalto ao Trem Pagador, O Padre e a Moça, Helena já estampava os pôsteres nas salas.

Contudo, foi no Cinema Marginal que Ignez fixou a bandeira: A Melhor Atriz brasileira de todos os tempos. Falar do movimento em questão sem falar em Helena é a mesma heresia em ignorar a importância de Júlio Bressane e Rogério Sganzerla – com quem Helena também se casou e consolidou a parceria mais importante do Cinema do país – pais fundadores da Tropicália nas telonas.

Há uma importante virada na carreira da atriz durante o Cinema Marginal. Sua atuação revela-se bem diferente do que antes se apresentava. O sucesso é quase espontâneo, Helena tornou-se um ícone do Cinema Nacional: A Família do Barulho, O Bandido da Luz Vermelha, Copacabana Mon Amour e A Mulher de Todos são algumas de suas atuações memoráveis.

Copacabana Mon Amour
Sônia Silk, personagem emblemática de Helena Ignez em “Copacabana Mon Amour”

O que, contudo, Helena Ignez tem de tão especial?

Infelizmente mais próximo dos cinéfilos de hoje – infelizmente por ser estrangeiro, não por sua importancia – Godard é mais assistido que Rogério Sganzerla. Por isso, façamos uma comparação com um de seus filmes. Pense no filme, Uma Mulher é uma Mulher. Um filme diferente do convencional, irreverente e até mesmo estranho aos olhos comuns. Os cortes são anárquicos, a trilha toca em momentos inesperados, o que se espera de Godard. Sganzerla tem uma característica parecida, a não ser por um ponto, seus filmes gritam! Gritam de deboche, extravasam ironia e sexo.

Feita a comparação, imagine o mesmo filme de Godard e sua atriz principal, Anna Karina. Estreante, a atriz já mostrava pra que veio em uma atuação contundente, cômica, porém emotiva. Contudo, ainda assim é uma atuação à francesa, inteligente, mas contida. Helena é o extremo oposto. Assim como pede os filmes de Sganzerla, sua atuação berra sexo e deboche. Ignez é a representação maior da extravagancia violenta feminina. As personagens construídas por Sganzerla não parecem possuir qualquer moral patriarcal pré-estabelecida. A mulher de todos quer é devorar todos os homens, consumi-los!

“Sempre esperei uma facada nas costas de todos os meus amores. Eu nasci para os boçais.” 

– Helena Ignez como Angela Carne e Osso em “A Mulher de Todos”.

Angela Carne e Osso
Helena Ignez e o Poster de A Mulher de Todos de Rogério Sganzerla. No cartaz a icônica Angela Carne e Osso.

Tudo que a máscara de atriz de Helena precisava encontrou nos filmes de Sganzerla e no Cinema Marginal. Seus personagens ignoram os homens à medida que os ama. Helena Ignez é um símbolo bem diferente do convencional, atrai pela sua potência, sua beleza é vulgar e autêntica, empoderada, dona de si.

O nome de Helena Ignez deve ser lembrado e relembrado na história do Cinema Nacional. Helena, a Mulher de Todos, inaugurou um novo modelo de atuação feminina que influenciou a muitas e engrandeceu o Cinema Marginal e nacional em sua essência. Helena Ignez e o Cinema Marginal fedem a esgoto, álcool e talento.

arte, cultura e soberania nacional

Copacabana Mon Amour
“Helena Ignez e o Cinema Marginal fedem a esgoto, álcool e talento.”

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