Filme: Grave

Por Philippe Leão

Filme: Grave (Raw)

Direção: Julia Ducournau

País: Bélgica; França

Ano: 2016

Elenco: Garance Marillier; Bouli Lanners; Denis Mpunga; Ella Rumpf; Joana Preiss; Laurent Lucas; Marion Vernoux; Rabah Nait Oufella.

raw

raw-posterJulia Ducournau, diretora estreante, definitivamente entra na lista de realizadoras a ser estudada. Grave, seu primeiro longa-metragem, é um terror diferente, agoniante e irreverente. Guarda na gaveta os maneirismos dos efeitos sonoros para provocar sustos baratos e cria uma narrativa desenvolvida nos efeitos da imagem.

O filme conta a história de Justine – vivida de maneira consistente por Garance Marillier – uma menina de família vegetariana e de tradições na veterinária. Justine está seguindo a carreira e acaba de ingressar na universidade onde, no trote, passou por situações como baldes de sangue e comer coração de coelho. Estes acontecimentos acarretariam em situações bizarras que desenvolveriam um apetite específico à garota.

O primeiro ato, inevitavelmente, me fez questionar a obra de maneira prévia. Em primeiro lugar o gênero, terror. Em seguida Justine, uma menina vegetariana que começa a se envolver com animais de maneira profissional. Depois uma série de acontecimentos relacionados com o trote que envolve o consumo da carne. Logo uma ideia de uma construção moralizadora dos conflitos foi surgindo em minha mente. O primeiro ato tinha tudo para tornar o conteúdo de da obra de fator moral, a moral vegetariana do “não devemos comer carne e proteger os animais”. Contudo, Julia Ducournau estabelece o desejo pela carne a partir do apetite sexual, o vegetarianismo é apenas um bom indício criador dos conflitos familiares. Grave eleva-se através de um grande potencial alegórico de fator erótico que o pontua como um possível cult movie.

1-zkonh7qleuq1z_ecz0plg
Grave não cai no clichê moralista e cria uma narrativa repleta de alegorias eróticas.

A narrativa é acompanhada por uma competente qualidade técnica. A trilha sonora, em especial, é excelente. Seu psicodelismo eletrônico amplia os sentimentos angustiantes sem que se torne um elemento que impõe os sentidos. Ao mesmo tempo, com uma escolha minuciosa, as músicas são capazes de pontuar o erotismo, criar o mistério através do misterioso.

As imagens são potentes. Sua força está concentrada em uma fotografia bem composta na através da variação de contra-plongès, câmeras frontais em close-up e ângulos inclinados para criar maior tensão e angústia ao espectador. A montagem, por sua vez, recria estes sentimentos através da soma dos elementos que a película busca criar para gerar o impacto.

Há sim alguns exageros e um final que poderia ser cortado – há um problema no terror vinculado à explicação dos acontecimentos anteriormente apresentados – mas nada que prejudique muito o resultado do filme. Definitivamente, Grave apresenta uma história de difícil aderência que poderia com certa facilidade cair no bizarro de exposição barata do gore. Mais um filme de terror que cresceu nos veículos de comunicação após o Festival de Toronto, restava saber se concretizaria o sucesso ou afundava como os outros que sofreram do mesmo mau. O saldo é positivo.

★★★★★

Cobertura do Festival do Rio 2016

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *