Crítica: O Fim

Por Brunno Abrahão

O Fim (The End) – França

Direção e roteiro: Guillaume Nicloux

Elenco: Gérard Depardieu, Audrey Bonnet, Swann Arlaud

O Fim

o-fimO Fim, novo filme de Guillaume Nicloux, apresenta mais um trabalho em parceria com Gérard Depardieu,  que dá vida a um velho caçador. E é exatamente a vida que está em jogo aqui, em todas suas interpretações. O homem, que não sabemos o nome, assim como nenhum dos personagens, acaba se perdendo pela trilha que costumava caçar. Perde seu cachorro e sua arma na floresta, antecedendo uma série de acontecimentos estranhos que marcam o andamento do filme e descrevem um suspense místico que reafirma assuntos já trazidos pelo diretor anteriormente.

A trama começa com uma típica cena que nos induz a sensação de rotina. Rotina é justamente o elo de ligação entre tudo que Nicloux propõe aqui. Vemos Depardieu acordando e seguindo sua rotina até chegar, junto ao seu cachorro, no local que costuma caçar. Entendemos a familiaridade com o espaço, mesmo que natural e aparentemente intocado, que o personagem expressa. Assim, o contraste com o ser perdido em um ambiente conhecido, se torna algo que desperta a curiosidade e estranheza em relação às razões que o levaram a tal situação.

Após seu cachorro sumir pela mata sem ao menos olhar para trás, o homem se abriga em uma caverna, onde em um belo enquadramento, o diretor sobrepõe a fogueira, em primeiro plano, e o caçador ao fundo, observando-a. A sobreposição da chama e personagem nos diz algo, que pode ser interpretado ao fim do filme como simbolismo referente aos erros que cometemos e os mitos sobre como os pagamos. Não vemos nenhuma conexão tão direta, mas a referência da caverna e suas sombras com a Alegoria é inevitável. Ali, o personagem não demonstra medo, mas apenas uma recorrente dependência do pouco alimento e bebida que lhe resta e por seu celular. Em outras palavras, o materialismo do ser em meio ao nada. Ao amanhecer, sua arma não está mais ali e um desenho de uma construção, aparentemente medieval, na parede da caverna o assusta.

As situações atípicas começam a acontecer de forma mais pontual quando ele se depara com diversos escorpiões no meio da trilha. Assim como o encontro com um jovem (Swann Arlaud) de caráter extremamente duvidoso, que surge em sua frente, abandonando-o em seguida. Atentamos, mais uma vez, ao detalhe do objeto de consumo na mão do jovem, que traz consigo uma bebida energética que sacia a sede do caçador. Sendo assim, o único ato de tentativa de ajuda-lo vinda do misterioso jovem. Nada, porém, intriga mais que o surgimento de uma mulher (Audrey Bonnet) nua, que o acompanhará do meio ao final do filme.

Juntos, os dois seguem em busca da saída daquela floresta, que parece leva-los aos mesmos lugares. Ela, de semblante traumático e aparentemente em choque, e ele, confuso pelas emoções e instintos que o atingem. Em um dado momento, onde os vemos deitados dormindo em pleno dia, o personagem de Depardieu acorda submerso em uma enorme quantidade de baratas que parecem devora-lo, deixando uma grande pista sobre o entendimento do filme.

Nicloux, assim como explorou em “O Vale do Amor”, faz aqui seu grande ensaio sobre a morte, explorando um personagem que, como dito pelo próprio, cometeu graves erros em sua vida. A foto de uma mulher, aparentemente sua falecida esposa, deixa claro, desde o início, a solidão e angustia que se encontram naquele homem. O visível ser perturbado e a rotina que o prende nos faz refletir sobre a tênue linha que divide a vida e a morte. O próprio misticismo do filme se justifica por todos os mitos que rodeiam essa linha.

Porém, apesar de todo o bom suspense e de nos prender, ouvi, diversas vezes, risos vindos de todos os lados do cinema, me fazendo questionar se Nicloux falhou em sua narrativa, já que, claramente, o riso não era a reação esperada pelo filme. Talvez tenha sido a platéia, mas, de qualquer forma, ele  acaba fazendo um filme que, assim que o interpretamos, nos deixa a sensação de já termos visto, seja pela temática ou pelas tentativas de nos intrigar, que as vezes despertaram riso ao invés de aflição

★★★☆☆

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