Crítica: Pequeno Segredo

Por Leonardo Carvalho

 

Brasil – 2016

Direção: David Schürmann

Elenco: Júlia Lemmertz, Marcello Antony, Maria Flor, Erroll Shand, Fionnula Flanagah.

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Depois de ter sido o escolhido do Brasil para representar o país no Oscar deste ano, “Pequeno Segredo” chamou a atenção dos cinéfilos em geral. Todos sabem que a nomeação do longa-metragem ocorreu devido aos problemas de um dos membros da mesa do Ministério da Cultura em relação a “Aquarius”, que era o favorito por ter feito sucesso de crítica e ter sido indicado à Palma de Ouro em Cannes.

Muito do que se ouviu falar foi que “Pequeno Segredo” era um filme com a “cara” da premiação mais popular do cinema. O estilo do longa-metragem está longe de ser o termo adorado por alguns estudiosos, o “filme de arte”, está muito mais para uma obra comercial, com cara de novela. O problema é que a categoria de melhor filme estrangeiro, quase que uma premiação à parte, possui uma “cara” mais voltada ao tal “filme de arte”.

A longa abertura inicial mostra como será essa “cara” da narrativa. Funcionando como um prólogo, os nomes da equipe vão sendo apresentados enquanto a câmera caminha do mar à superfície ao lado de uma música que sugere a dramaticidade. Uma borboleta aparece nesse meio, servindo como um elemento relacionado à garotinha protagonista.

Até aí tudo bem, por mais que já entregue um pouco da composição, ou seja, deixa o espectador prematuramente ciente do que será visto. Depois disso, quando equívocos atrás de equívocos começam a aparecer, uma voz over da mãe que representa a menina é adicionada à imagem, redundante demais por contextualizar que a família vive no mar, e força ao dizer que possuem “o mundo inteiro” por habitarem esse tipo de região.

Essa voz over é dividida em algumas partes, como por exemplo, Kat, a protagonista que desconhece os problemas que possui em termos de saúde, e sua mãe, como foi falado acima. A história baseia-se num jogo de subtramas que vai se interligando com o passar do tempo. Além desse núcleo citado neste parágrafo, sobre a família que vive à beira do mar em Florianópolis, há também o relacionamento extremamente pálido entre um neozelandês, uma brasileira e os pais deste.

Há muitas subtramas e todas elas são mal desenvolvidas. O público fica perdido no começo do longa-metragem, demérito de uma montagem truncada, com pouca exploração de cada núcleo, deixando a fluência pouco natural. A culpa disso também vai aos personagens, mal apresentados e fraquíssimos na tentativa de criar laços com o espetador.

Quando algum laço é criado, no caso da menina, isso só é feito graças a elementos muito forçados, como diálogos pífios preenchidos aos momentos dela e uma atuação bastante razoável, culpa de uma direção que não coordena a naturalidade no espaço cênico. Ainda sobre os diálogos, para provar a pouquíssima espontaneidade e a implantação da moralidade, temos modelos como: “Eu sabia que ela era especial.”; ou “amar é isso, amar é aquilo”. Piorando a situação do roteiro, o longa-metragem subestima o público ao ter que explicar, e reforçar durante todo desenvolvimento, o que é a Nova Zelândia e onde ela fica.

O drama também é forçado na música, com toques simples e lentos irritantes de um piano, além de ser aplicado por uma fotografia que exagera na proximidade dos enquadramentos com o intuito de absorver a emoção. Há também discussões mais batidas do que a própria temática narrada, sobre bullying, sobre preconceito, com esta parte numa atuação decepcionante da estrangeira Fionnula Flanagah. O negócio ainda é prejudicado quando a personagem desta acaba virando uma espécie de vilã, como estamos acostumados a ver no cinema hollywoodiano.

Sendo justo com tudo o que foi falado acima, a narrativa ainda tem espaço para uma conclusão cansativa dividida em três partes: a descoberta da verdade pela menina, a “perseguição” da “vilã” e o epitáfio (previsível já na metade do enredo). As ligações entre as subtramas, anteriores às finalizações, estavam pelo menos atingindo com a proposta, mas são logo quebradas por esse longo desfecho.

Não só as chances de “Pequeno Segredo” são praticamente nulas se levarmos em conta os últimos anos da categoria de melhor filme estrangeiro, mas também é um dos piores filmes brasileiros dos últimos anos, tirando, é claro, aquelas comédias escrachadas. David Schürmann erra demais na homenagem à filha adotiva da família nessa obra recheada de sentimentalismo artificial que gira em torno de estereótipos intermináveis.

★☆☆☆☆

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