Crítica: O Demônio de Neon

Por Leonardo Carvalho

Estados Unidos – 2016

Direção: Nicolas Winding Refn

Elenco: Elle Fanning, Keanu Reeves, Christina Hendrix, Jena Malone, Bella Heathcote.

Demônio de Neon

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O primeiro plano de “O Demônio de Neon”, obra dirigida por Nicolas Winding Refn, dá a sensação de que estamos vendo uma boneca, por sua gigantesca estaticidade, caracterizada por traços coloridos um tanto esquisitos. Logo depois, sabemos que não é uma boneca, mas trata-se da personagem representada por Elle Fanning.

A introdução, na verdade, é bastante simples, com um rápido trecho preenchido por música eletrônica e pequenos flashes de neon em contraste com um ambiente totalmente escuro que quebra com a leveza inicial. A simplicidade aparece nas cores uniformes das roupas da protagonista, nos planos não muito ousados, nos diálogos mais informativos para que o desenvolvimento da obra seja ditado.

É após uma “entrevista” para avançar na sua iniciante carreira de modelo que muitos aspectos começam a ser modificados nos rumos da protagonista. Indicando isso de uma maneira mais simbólica, um felino selvagem entra no quarto em que a menina reside, uma espécie de metáfora à “selvageria” que parece penetrar em seu novo cotidiano, quando desloca-se a um local para fazer um teste em sua área; uma selvageria internalizada em mundo habitado por disputas de poderes por pessoas extremamente ambiciosas, ainda que essa ambição precise passar por cima de outra pessoa, é como as águias de rapina da “Genealogia da Moral”, de Friedrich Nietzsche.

Chegando lá, entende-se, rapidamente, a existência de uma disputa num grupo vasto de meninas para que algumas delas sejam selecionadas a trabalhar pela agência em que fazem o tal teste. Sabemos que Jesse, a figura de Fanning, aparenta a ingenuidade e não está preparada para esse tipo de relação desarmônica de predatismo. Para provar isso, para provar que ela não está preparada a esse meio, um pouco antes do teste citado agora, há uma cena em que a mesma está sendo fotografada, agora por um profissional.

Ela é colocada num fundo totalmente branco para ser fotografada, e a sensação absorvida pelo espectador, se levar em conta as expressões preocupadas da atriz e o isolamento do enquadramento, é que ela está perdida. Nessa mesma cena, um ponto negativo, pois era necessário que houvesse a nudez de Fanning na imagem, já que o estilo do filme, ousado o tempo inteiro, não poderia simplesmente limitar a visão do público, inserido no ambiente, a um plano fechado nos ombros da menina. A simples sugestão nesse caso, não funcionou.

Toda a ingenuidade e o isolamento da menina vão dando espaço, ainda que não seja de maneira gradual, ao lado selvagem falado acima. Não existe uma espécie de gradação sobre essa característica, mas, sim, uma dualidade: ora está numa posição angelical, ora está sendo vista como um demônio. Para caracterizar esses dois lados, a atuação da jovem Fanning precisou ser acionada em diversos modos diferentes, ora com gestos mais contidos, ora com gestos mais brutais; é um papel difícil, e conseguindo ser, no mínimo, competente, a atriz deveria ser reconhecida por sua bela representação.

A forma angelical pode ser encontrada quando, no desfile, a menina é rodeada por triângulos com cores azuladas, enquanto suas expressões são neutras. Logo depois, há uma troca brusca em seu comportamento, de mais sensualidade, de olhares mais “demoníacos”, dando espaço para a mudança de cores aos triângulos citados, agora de coloração vermelha. O anjo também pode ser visto próximo ao clímax, quando a personagem está com um vestido de cores claras, na ponta de um trampolim, como se estivesse flutuando, e isso pode ser percebido graças a um tipo de contraplongée utilizado; o demônio também é visto por Jesse, a personificação da beleza, a criadora do caos através da inveja e da tentação.

Essa beleza é obcecada, e no clímax não sabemos mais o que é o belo e o que é o grotesco, não só por elementos visuais, como o banho de sangue incrivelmente paradoxal nesse sentido, mas por tudo o que foi mostrado na busca pelo sucesso. No ápice da narrativa, além desse banho, existe uma rápida perseguição que agita o ritmo calmo encontrado em boa parte da duração. Uma pena que a conclusão, que era perfeita de acordo com a proposta numa sessão de fotografias, é estragada pelo excesso de explicação do objetivo anterior de duas personagens.

Há outros pontos que são colocados como costuras ao longo da narrativa. É possível encaixar o conceito sobre a mudança de subjetividade a qualquer instante através de cirurgias, tintas para cabelo e até mesmo pelo excesso de maquiagem. Isso é colocado, de maneira levemente debochada, por um dos indivíduos fundamentais na agência em que existe a disputa entre as mulheres.

Tudo o que foi falado acima está sob o sustento de uma trilha musical excelente, de sons eletrônicos, combinando perfeitamente com a proposta do mundo da moda pelos sons artificiais, ao mesmo tempo que extrapola no suspense com os sintetizadores misteriosos, marcadores de expectativas quando trabalhados junto à imagem. É uma obrigação da Academia indicar o filme na categoria.

“O Demônio de Neon” está próximo de ser uma obra-prima, mas é um ótimo pedido aos fãs das artes em geral, obrigatório aos estudantes/profissionais na área da moda. Visualmente é deslumbrante – lembra o objetivo colorido de “Spring Breakers” -, possui toques poéticos e tecnicamente se sai bem. Apenas uma pergunta ficará após o apagar das luzes da sessão: por que diabos Keanu Reeves e Christina Hendrix estão em seus respectivos papéis?

★★★★★

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