ARTE, CULTURA E SOBERANIA NACIONAL

Por Philippe Leão

 

O Brasil está passando por um período de intensa histeria política onde até mesmo a arte está sendo prejudicada. Recentemente o filme Aquarius dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho pisou no tapete vermelho do maior festival de cinema do mundo, Cannes, com chances, inclusive, de sair vitorioso. Os artistas aproveitaram o momento para realizar um protesto político referente ao golpe que, no momento, ainda não havia sido concretizado. Pronto. Depois do acontecimento houve uma grande busca pelo boicote de Aquarius que, é verdade, só fez crescer o filme. Mas não é sobre Aquarius esta matéria, mas de uma das acusações que o filme sofreu e que, desde muito, é um câncer social no pensamento nacional: O filme foi financiado com dinheiro público, e isso é usado com desmerecimento, como se um determinado partido houvesse comprado – mesmo que sejam diversos os filmes beneficiados por tal programa – a realização e o ato político neste envolvido.

Em primeiro lugar, sim, a Arte deve ser financiada com dinheiro público. Enquanto houver gente achando que cultura, cinema nacional autoral – não esses filmes pagos por grupos oligárquicos – não deve ter incentivo público, o Brasil não desenvolverá soberania. A arte é, também, uma questão de defesa nacional. Todas as nações soberanas no mundo investiram pesado em cultura e, consequentemente, em seu Cinema Autoral. Estados Unidos, França, Japão, Alemanha e, hoje, a Coréia do Sul.

aquarius
Depois de uma onda histérica de uma camada conservadora da sociedade, Aquarius cresce e ganha os holofotes. Importante dizer que, talvez, apenas por isso o filme tenha conseguido tal visibilidade. Ou seja, quem deu voz à Aquarius foram seus opositores. Se antes a base construia o público de filmes do Cinema Novo e Marginal, hoje a base da sociedade está vendida à um imperialismo, onde até mesmo o Cinema Nacional é transformado, americanizado. Assim, o cinema autoral nos dias atuais dependem cada vez mais de investimento para sobreviver.

E porque é papel do Estado o investimento em cultura?

Em primeiro lugar o investimento privado não atenderia aos interesses intrinsicamente nacionais. Para que a cultura seja arma de defesa de interesses nacionais a níveis globais ela precisa atender a uma identidade nacional. A medida que o Estado investe qualitativamente em um cinema autoral, cria uma barreira natural à tomada de um imperialismo cultural. Isso não significa a ausência do que vem de fora, mas a força do que é feito dentro.

“A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”

– Milton Santos

É justamente essa alienação conservadora, que esbraveja com uma ignorância sem limites, que expõe esta fragilidade individual. A força da alienação coletiva enfraquece o Povo e deixa vulnerável a soberania nacional à medida que não cria uma identidade, algo que o una, permitindo que um país assuma e vanglorie apenas a cultura de outros.

Isso é uma questão de defesa, sim, à medida que um Povo assume a cultura estrangeira como absoluta e maior possível, este abre margem para um domínio cultural e, até mesmo, territorial. Veja bem, o domínio forçado estadunidense no Afeganistão já está tomando proporções culturais. A Coréia do Sul sofre com um processo de ocidentalização estética – as famosas cirurgias plásticas para ocidentalizar os olhos – que, porém, vem sendo combatida. É função de um ministério da cultura, mas atende à soberania de um país, à defesa.

As respostas negativas de um determinado grupo à Aquarius demonstram claramente a fraqueza de nossa soberania, como somos frágeis, em especial, ao que vem dos Yankes. Afinal, somos um país onde filme estadunidense nem mesmo é considerado “filme estrangeiro” para o senso comum. Isso se chama domínio. Hoje cultural, amanhã, territorial.

As hegemonias culturais, desde sempre, se aproveitaram das fragilidades das soberanias de um Povo apoiando regimes totalitários e assim ganhar mercado. Esse é o colonialismo moderno, não se trata de dominar e instituir um governo estrangeiro se trata de impor uma cultura.

A cultura, mais do que nunca, é um caso de defesa nacional, de soberania.

Um país onde “Cinema Nacional” tornou-se gênero. Cópia de modelos fáceis de comédias escrachadas de baixo custo vindo do exterior, filme estadunidense produzido em território brasileiro. Essa é visão de nosso povo ao nosso Cinema. Não se pode afirmar sob hipótese alguma, nessas condições, que não há necessidade de investimento público em cultura e cinema. Nosso cinema está vendido! E aqueles que produzem algo que, de fato, representa algo de interesse nacional respiram com dificuldades.

O Cinema Novo trazia o Brasil e conquistou o mundo. O Cinema Marginal uma estética bastante específica ao nosso cinema que influencia até hoje uma gama de cineastas autorais em nosso território. Nos anos 90 e 2000 o Cinema da Retomada chega, um pouco americanizado, é verdade, e por isso conquista um público relevante – volto a dizer, não temos soberania cultural (o que não significa que não temos cultura) e por isso somos vulneráveis ao que vem de fora. Hoje é a vez do Cinema Pernambucano, que vem revelando um filme mais fantástico que o outro, ano após ano: Baixio das Bestas; Cinema, Aspirinas e Urubus; Amarelo Manga; A Febre do Rato; O Som ao Redor; Uma História da Eternidade e, agora, Aquarius. Apesar do sucesso artístico, o sucesso de público não é garantido e, quando algum deles conquista algum holofote é o mesmo momento em que uma massa conservadora – que não cultua a cultura de sua nação – tenta boicota-lo e torna-lo obscuro.

Copacabana Mon Amour
O Cinema Marginal tinha como foco a produção de uma estética e forma diferenciada antes de qualquer coisa. A estética marginal é suja e vulgar, influenciando uma série de diretores do Cinema Nacional autoral, inclusive o Novo Cinema Pernambucano.

Em qualquer Estado que se deseje instaurar soberania, em primeiro lugar deve-se ter em mente a ideia de identidade cultural. Assim, até mesmo e principalmente Estados ditatoriais investiram pesado em Cultura, o Nazismo e a Ditadura Militar do Brasil são exemplos. Contudo, é necessário que se faça a distinção dos mesmos. Há uma clara criação de uma cultura conveniente a um governo manipulador, uma cultura aos moldes de interesses governamentais. Portanto, o investimento público em cultura deve apontar para a cultura livre, autoral, não levando em consideração os interesses de determinados grupos políticos ou sociais.

Grupos oligárquicos já perceberam a fragilidade do Povo e sua predisposição em consumir o igual, o protótipo, a fórmula. O investimento, por isso, deve se dirigir ao cinema intrinsecamente nacional, autoral. Não necessariamente deve falar de Brasil, mas demonstrar um novo modelo estético, Brasileiro. Ao assistir a um filme Sul Coreano moderno – para aqueles que o conhecem minimamente – logo o identificamos como tal. Não indo tão longe, o Cinema Novo e o Cinema Marginal antes faziam o mesmo com nossa sétima arte.

Uma estética brasileira por excelência, contudo, já existe, engatinha presa por uma corrente que a impede de avançar mais forte. Infelizmente o Cinema brasileiro jamais pode contar com a mídia para que tivesse força seus movimentos. Tanto o Cinema Novo como o Marginal tiveram que crescer da base – que hoje não busca o cinema nacional autoral, apenas aqueles que conseguem chegar aos holofotes por alguma ocasião inesperada, caso de Aquarius – foram grandes, mas ainda assim recebiam menos público que os filmes das mesmas oligarquias à época.

Contudo, para que se tenha uma maior dissipação de tal cinema, considerando as dimensões territoriais brasileiras, há uma terrível dificuldade na distribuição cinematográfica. O número de salas por aqui está bastante abaixo do necessário para se desenvolver um efetivo investimento em cultura para todos. No geral concentradas nos grandes centros próximos ao litoral e, mesmo nestes, os espaços destinados à Arte autoral é bastante reduzida devido à explosão dos shoppings centers e os grupos de exibição que nestes se instauraram a partir dos anos 80, praticamente extinguindo o cinema de rua. É importante, portanto, que o investimento traga um maior número de salas onde estas são ausentes. É necessário, porém, que seja um investimento público ou privado subsidiado, onde se estabeleça regras de distribuição para que se estabeleça um cinema autoral por todo território. Caso contrário, os interesses dos grandes grupos partirão por distribuir o que já é distribuído na maior parte das salas espalhadas pelo país, cultura estrangeira (norte americana, em especial), de massa, os blockbusters.

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