A “Cara do Oscar” e o Melhor Filme Estrangeiro

Por Philippe Leão

 

Sem contar os fatos políticos envolvendo a ausência de Aquarius na disputa do Oscar 2017 – que são fortes o suficiente para justificar a não escolha da mesa comandada pelo Ministério da Cultura – a desculpa utilizada para a escolha de “Pequeno Segredo” é recorrente, o filme “comunica melhor com o Oscar”. Ora, o que significaria isso?

É um fato para quem conhece a premiação que temos aqui uma Academia moralista em que, em sua história, grande parte dos vencedores já caíram no esquecimento mesmo com todos os esforços do Oscar para que isso não aconteça (dar o premio de melhor filme para um filme tecnicamente pior para que lembrem deste, já que o merecedor já seria lembrado). Portanto, a justificativa dada pela comissão se encaixa aqui, nestes paradigmas. É possível perceber apenas pelo Trailer de Pequeno Segredo a sua forte ligação com um forte sentimentalismo – barato – e fotografia de cinema de família, otimista (um filme recente que se encaixa em tais termos é A Teoria de Tudo, exemplo). Contudo, a escolha por Pequeno Segredo se mostra equivocada e o desconhecimento – no mínimo, para não dizer má intensão – da banca para com o Oscar é imenso. Alguns pontos:

Em primeiro lugar, é vergonhoso e extremamente penoso para arte cinematográfica brasileira a escolha de um representante, que ganharia visibilidade internacional, através de uma filosofia supostamente pré-definida pela Academia do Oscar. Em benefício da arte o escolhido deve ser o melhor, ponto. Há dúvidas disso?

aquarius
Aquarius foi selecionado para participar em Cannes mas foi preterido na disputa do Oscar sob a alegação de não ter “a cara do Oscar”.

Fator importante, também, é que recentemente a academia vem sofrendo um processo de renovação. Poderemos ver já no próximo ano uma mudança significativa nas escolhas das categorias principais e, até mesmo, nos filmes estrangeiros. Portanto, é provável que essa lógica de sentimentalismo e otimismo dê lugar a outra na filosofia do Oscar com o passar dos anos – o que também não é bom, o critério deveria ser o melhor e ponto.

Por último, e talvez o mais importante nesta análise, está o fator que a mesa avaliadora “esqueceu”. A categoria de Melhor Filme estrangeiro é uma premiação quase a parte dentro do Oscar. Se as categorias principais não remontam nem mesmo a história do cinema americano, a de melhor filme estrangeiro carrega alguns rastros da história do Cinema Mundial. Calma lá, não estou dizendo que são os verdadeiros melhores filmes do mundo que estão ali representados, mas os indicados para essa categoria, faremos uma breve análise aqui, conseguem minimamente trazer uma narrativa positiva para o cinema do mundo. Portanto, na maioria das vezes, há bons critérios de seleção dos representantes – mesmo que em um modelo eurocêntrico – e esta lógica da “cara do Oscar” não cabe aqui. É claro que há filmes com essa cara que por ventura saíram vitoriosos ou foram indicados – caso de A Vida é Bela, por exemplo – mas no geral, percebam a história sendo contada:

Vou pular algumas coisas que podem ser importantes, não caberia no texto:

De 1948-1956 havia apenas um prêmio Especial para os filmes estrangeiros, nesse período não haviam indicados, apenas premiados. Algumas considerações válidas sobre o período:

1948 – Vítimas da Tormenta (Vittorio de Sica)

1950 – Ladrões de Bicicleta (Vittorio de Sica)

Ladrões de Bicicletas
Ladrões de Bicicleta representa a história do Neorrealismo Italiano no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

1952 – Rashomon (Akira Kurosawa)

Há outras coisas importantes no período, mas esses chamam atenção em primeiro lugar para a história do Neorrealismo Italiano sendo contada, representada. Movimento dos mais importantes da história do cinema que influenciou diversos realizadores na história do Cinema. Em segundo o primeiro dos quatro filmes de Akira Kurosawa lembrados pela academia.

De 1957-1960:

Os três anos seguintes marcam o inicio da premiação por mérito, ou seja, agora há indicados e uma posterior votação. Agora repare os três vencedores desse período:

1957 – A Estrada da Vida (Federico Fellini)

1958 – Noites de Cabíria (Federico Fellini)

Noites de Cabíria
Federico Fellini é o maior vencedor da história do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ao lado de Vittorio de Sica. Dois grandes nomes.

1959 – Meu Tio (Jacques Tati)

Ora, diretor extremamente influenciado pelo Neorrealismo Italiano em sua fase mais realista ganha o premio em dois anos consecutivos na categoria. Federico Fellini se tornaria um dos grandes mestres do Cinema Mundial. Meu Tio, de Jacques Tati, representa uma comédia francesa muito lembrada na história. No mesmo ano, Os Eternos Desconhecidos, outra comédia de Mario Monicelli também foi lembrada.

Década de 1960:

1961- A Fonte da Donzela (Ingmar Bergman)

1962 – Através de um Espelho (Ingmar Bergman)

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Assim como Fellini e De Sica, Ingmar Bergman também ganhou o prêmio duas vezes seguidas. A Fonte da Donzela e Através de um Espelho.

1963 – Pagador de Promessas (Concorrente)

O Pagador de Promessas
Curiosamente, O Pagador de Promessas concorreu ao Oscar de Melhor filme estrangeiro depois de ganhar em Cannes.

1964 – 8 ½ (Federico Fellini)

1966 – A Pequena Loja da Rua Principal (Ján Kádar; Elmar Klos)

1968 – Trens Estreitamente Vigiados (Jiri Menzel)

Trens Estreitamente Vigiados
A história da Nova Onda Tcheca também foi lembrada no Oscar. A Pequena Loja da Rua Principal e Trens Estreitamente Vigiados venceram o prêmio.

Desse período, apesar da ausência de nomes como Franços Truffaut e Jean Luc Godard, temos Ingmar Bergman, aclamado diretor dos mais influentes que já existiu ganhando por duas vezes consecutivas. Em 1963 o importante Pagador de Promessas, brasileiro, concorre depois de vencer Cannes, curioso. Em 1964 começa a era do novo cinema de Fellini, premiado por 8 ½ e mais tarde também Amacord. Por último, 1966 e 68 representam a nova onda Tcheca, importantíssima na história do cinema e lembrada na premiação.

Década de 1970:

1973 – O Discreto Charme da Burguesia (Luis Buñuel)

1974 – Noite Americana (François Truffaut)

A Noite americana
Se a Nouvelle Vague Francesa foi “esquecida” nos anos 60, François Truffaut foi lembrado na década seguinte.

1975 – Amacord (Federico Fellini)

1976 – Derzu Uzala (Akira Kurosawa)

O mestre do surrealismo lembrado, isso já basta. François Truffaut não está representado na década de 1970, mas aqui está, e não é uma compensação. Amacord, mais uma vez Fellini e Derzu Uzala, Kurosawa.

Bom, pra contar a história do cinema já basta. Se quiser continuar a lista e ver com os próprios olhos basta pesquisar no google a lista dos indicados e vencedores da categoria daqui por diante.

Pois bem, há quem diga, contudo, que os filmes mencionados são obras primas de diretores consagrados – como se já soubessem em seu primeiro filme premiado que Fellini seria um grande mestre – e não contariam na lógica de buscar uma “linguagem do Oscar” nesta categoria. Mesmo que esse pensamento me pareça equivocado, avaliemos então os últimos cinco anos:

2012 – A Separação (Asghar Farhadi, vencedor em Berlim)

2013 – Amour (Michael Haneke, vencedor em Cannes)

2014 – A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, Indicado em Cannes);

2015 – Ida (Pawel Pawlikowski)

2016 – O Filho de Saul (László Nemes, Indicado em Cannes)

Vejamos, o que cada um desses filmes tem de semelhança para que possamos traçar uma ideia de identidade com o Oscar? Nada! A não ser a ideia de que sejam filmes completamente diferentes uns dos outros, nisso se assemelham, na originalidade. Outro fator que pode identifica-los está ligado ao fato de a maioria deles ter sido indicado no festival de Cannes o que, curiosamente, o filme brasileiro politicamente preterido também tinha em seu currículo.

O anos de 2012 e 2015, únicos em que os vencedores não foram indicados em Cannes, tiveram nos outros concorrentes que foram lembrados por Cannes. Timbuktu, Leviatã e Relatos Selvagens foram lembrados entre os de 2015, o que significa que apenas Tangerinas não esteve em Cannes. Nota de Rodapé em 2012.

Então, voltando a pergunta inicial, o que significa um filme que “comunica com o Oscar” quando se trata de uma categoria como filme estrangeiro? Nada. Apenas uma escolha política.

Ps: A frase de Bruno Barreto, lider da mesa avaliadora da seleção do representante brasileiro reflete bastante o processo de qualificação da arte e sua representatividade.

“Ele tem melodrama, criança, Aids. Não sei se será o melhor, mas tem elementos.”

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