Crítica: A Última Gargalhada

Por Leonardo Carvalho

Alemanha – 1924

Direção: F. W. Murnau

Elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft

a ultima gargalhada

rfzm940635831902151743054Dirigido por um dos diretores mais importantes da história do cinema mundial, “A Última Gargalhada” é um dos grandes filmes do cinema mudo, sendo importantíssimo para a indústria da Alemanha naquela época. Não é a obra mais grandiosa de F. W. Murnau, pois “Nosferatu” é superior, mas mesmo assim merece destaque em diversos sentidos.

A trama central é um tanto simples e chega a ser esquisita se comparada às histórias tratadas nos filmes naqueles anos. Um homem, porteiro de um elegante hotel (Atlantic) em Berlim, é dedicado em suas tarefas enquanto está no trabalho. Todos os tratam com bastante respeito, desde os seus amigos às pessoas da vizinhança. Com a chegada do novo gerente, porém, o idoso é rebaixado ao serviço de limpeza logo depois de demonstrar cansaço ao carregar uma pesada bagagem.
É nítido que a sua autoestima é muito mais rebaixada que o seu cargo. Para provar isso, há um trecho em que, logo após saber da notícia, o homem vai ao hotel recuperar (roubar, na verdade) a sua roupa de porteiro, a qual havia sido retirada de seu pertence para que pudesse ser passada a outro empregado.
Esse furto mostra o quão abalado o idoso ficou depois da notícia. Ainda, após concluir o ato com sucesso, misturando idade e delírio, o mesmo tem a sensação de que uma espécie de monumento está caindo sobre seu corpo, momento esse que pode ser interpretado através de um acerto no plano subjetivo. Essa intensificação acontece quando todo o respeito que tinha é transformado em gargalhadas por conhecidos que ficam extremamente horrorizados com sua nova função.
O plano subjetivo, para ser mais exato, é muito utilizado. Isso é muito importante para que o espectador fique mais próximo do que está sendo narrado, pois há um trabalho lírico ao redor do longa-metragem, em que o protagonista está em grande parte da duração nas imagens. Sendo assim, era necessário que existissem enquadramentos que traduzissem algumas das visões do personagem, um grande acerto. Não só isso, mas os planos fechados no ator também servem para que exista uma aproximação entre o público e a figura representada por Emil Jannings. Por último, percebemos alguns delírios, entramos em seus sonhos, em que há distorções na imagem para causar ilusão.
Falando em atuação, Jannings concede um espetáculo no papel do homem em crise de identidade. Desde as expressões que ao mesmo tempo controladas e espantosas, dramáticas, até seu posicionamento forte, com uma presença magistral diante de uma cenagrafia impressionante, do hotel aos bairros pobres, do interior do hotel mais escuro às ruas iluminadas na calçada do Atlantic. Na verdade, toda a mise en scène é trabalhada com maestria, o que Murnau já fizera em “Nosferatu” dois anos antes.
Como já foi falado acima, “A Última Gargalhada” possui uma temática bastante simples, mas é possível encontrar alguns elementos sombrios do Expressionismo alemão. Em alguns destaques, Murnau faz uma própria referência – a “Nosferatu” – quando, a sombra acompanha o ritmo do corpo na subida de alguns degraus. Não só nesse momento, mas o jogo de luz e sombra aparece, por exemplo, quando o homem vai ao furto do traje de porteiro, sendo que entrou escondido numa parte escura do hotel. Percebemos muita escuridão nos fundos e a claridade sobre a figura. Há um clima sombrio acerca da devastação do idoso, já que o antigo local de trabalho é mais claro, enquanto o novo posto é mais escuro. Vemos mais uma vez no movimento cinematográfico que a cenografia faz jus ao sentimento do personagem.
Finalmente, o desfecho da obra é o único grande problema a ser falado – forçado pela UFA a ser colocado. O final vai totalmente ao contrário ao ótimo drama explorado, pois a conclusão é um apelo fácil e incoerente. Ainda que tenha esse desfecho, “A Última Gargalhada” se aproxima de uma obra-prima e foi fundamental naquelas primeiras décadas do cinema. Com um estilo mais realista, bem executado graças ao ótimo trabalho da mise en scène, variando para sonhos e delírios, o longa-metragem é completo no desenvolvimento de um enredo simples e muitas vezes risível, mas muito bem composto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *