Crítica: A Mosca

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 1986

Direção: David Cronenberg

Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz.

A Mosca

 

The FlyO físico Seth está desenvolvendo uma máquina de teletransporte. Acompanhado de Veronica, uma jornalista por quem se apaixona, ele faz alguns testes com objetos e com um macaco. Depois de ter brigado com a mesma e de uns copos de bebida alcoólica, Seth sente-se encorajado a testar a máquina em si próprio. Os resultados, porém, não são esperados, e consequências terríveis podem acontecer.

Essas consequências lembram muito o que acontece em “A Metamorfose”, de Franz Kafka, quando um indivíduo também é transformado em um inseto. Ambos podem ser interpretados através de uma visão mais simbólica, como o rebaixamento do homem, como a sociedade o trata – mais cabível na novela -, como um ser pequeno num ambiente muito grande e isolado – mais cabível ao filme.

“A Mosca”, estruturalmente, pode ser vista como um filme de expectativas sobre os acontecimentos do conteúdo. Essas expectativas são divididas em duas partes. A primeira está relacionada ao trabalho do enredo sobre o inseto. Sabemos que a história fala sobre teletransportes, mas não sabemos ao exato o que pode acontecer. Como Hitchcock fez em “Os Pássaros”, Cronenberg conduz seu filme sem escrachar a mosca logo no seu começo, mas coloca o espectador na sua poltrona para esperar a aparição do pequeno animal.

Já a segunda parte das expectativas está relacionada à questão da transformação do homem depois de ter entrado no local de experimento com a mosca. Muitos planos detalhes são focados nas costas do homem, que possuía uma ferida antes de se teleportar com a mosca, agora com espécies de pelos grossos, diferente dos pelos humanos. A expectativa, nesse caso, é criada a partir das mudanças físicas e psicológicas do homem, cada vez mais distinto nos dois aspectos: mais forte no primeiro, e mais fraco no segundo.

À medida que as transformações do homem acontecem, o nível de tensão vai crescendo sobre suas atitudes, cada vez mais agressivas e imprevisíveis, chegando a causar insegurança em sua companheira. A maquiagem fica cada vez forte, evidenciando a decadência do homem-mosca.

A trilha sonora também aumenta claramente sua presença através das transformações de Seth. Além de aparecer mais fortemente como efeitos sonoros, antes basicamente pelos raios do teletransporte, agora com grunhidos do homem-animal, as melodias ganham um peso dramático enorme ao acompanhar o protagonista em sua redução ao inseto.

Não fora disso, a atuação de Jeff Goldblum, outrossim, é intensificada. Com muito domínio sobre a proposta do personagem, o ator se sai muito bem, sem cair em exageros toscos tanto em suas expressões quanto em seus gestos. Muito pelo ao contrário, Goldblum demonstra uma presença de atuação como poucos ao longo de todos dos anos 1980 no cinema norte-americano.

Para fechar, devemos reconhecer o excelente trabalho da montagem. As cenas são bem organizadas a partir da gradação de expectativas e de intensificação. Cara de “filme B”, execução de “filme A”, “A Mosca” tinha tudo para ser recusado pela crítica em geral, mas consquistou-a por sua composição excelente que mistura terror, ficção científica e até romance, com todos eles sendo recheados de muita nojeira e um final desconsertante.

Por essas e outras, “A Mosca” é uma das grandes obras dos anos 1980 e afirmou David Cronenberg como um cineasta de prestígio, de identidade única na indústria cinematográfica. Sabemos, ainda, que esse filme é uma refilmagem de “A Mosca da Cabeça Branca”, e o longa-metragem analisado aqui é de grande qualidade e estilo distinto, diferente do que acontece com grande parte dos remakes.

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