Até que a Morte os Separe: A Noiva em Relatos Selvagens

Por Philippe Torres

 

*Texto pode conter Spoiler

 

Pensar o filme além da crítica cinematográfica é um projeto do Cineplot. Neste artigo exercitaremos a capacidade de pensar cinema a partir do multipremiado filme argentino Relatos Selvagens. Diferente, porém, de uma crítica convencional, nossos esforços se concentrarão no último episódio da película: Até que a morte nos separe.

O sucesso do filme parece ser algo preestabelecido, garantido. A quebra de valores éticos é algo de especial interesse narrativo. Sobretudo, porém, o longa-metragem de Damián Szifron trata das vontades, dos desejos mais primitivos. Não há extremismo nas ações de seus personagens, mas uma vontade que supera valores morais. Assistir na tela grande os nossos desejos em projeções de imagem em movimento é algo deveras atrativo.

Se somos fracos para realizar nossas potências mais primitivas, ao menos temos a arte, o filme, para diminuir nossa angústia, nos fazendo rir de nossas próprias vontades.

O último episódio começa. A festa parece acontecer com naturalidade. A felicidade dos noivos contagia os convidados. Contudo, a alegria dos outros é um valor cafona de se ver de fora, em especial na arte, no Cinema. Não há nada de interessante na felicidade no âmbito artístico. Como nos demais episódios, não demora para que os conflitos morais surjam. Em meio a alegria proporcionada pelo casamento, a noiva, vivida de forma irretocável por Érica Rivas, avista o noivo com uma mulher de seu trabalho e, desconfiada, usa o telefone para descobrir a possível traição. Fato confirmado.

A condição humana, as vontades, são naturalmente poligâmicas. A moral, intrinsecamente monogâmica. Como vimos, quando a vontade de potência é superior à moral agimos, sem qualquer fator regulador. Assim surgem os conflitos do episódio.

Em um primeiro momento a noiva sobe no telhado do prédio com a intenção de se matar. A vontade, porém, não supera, não é tão forte assim. Um cozinheiro que se encontrava no local a convence de não realizar o feito. Ao tempo que conversam, um clima entre os personagens se estabelece. Contudo, como diz Nietzsche em sua doutrina do Eterno Retorno, devemos seguir sobretudo nossas vontades, não recuando ante a nenhum meio, mas devemos saber onde estão nossas preferências. A preferência da noiva não estava no cozinheiro, mas em seu desejo de vingança.

Relatos
A noiva sobe ao telhado pelo impulso do suicídio. A vontade não é tão potente, não superando a moral.
Relatoselvag
A Noiva começa a tirar seus apliques. O ato é um simbolo da queda das máscaras e surgimento do ser.

O noivo, ao subir no telhado, vê a traição. A noiva, então, promete a ele jamais larga-lo, jamais divorciar-se, mas que o trairia com todos os homens, arrancaria-lhe todo seu dinheiro, até que a morte os separe.

A noiva volta para a festa já consumida pela vingança. Suas máscaras morais começam a cair e, simbolizado pela remoção dos apliques do cabelo, começa a demonstrar seu verdadeiro eu, agindo pelas ações provocadas pelo corpo.

Arremessa a amante nos espelhos, ameaça a todos com uma faca que, afinal, serviria apenas para cortar o bolo. O noivo, já desmascarado, demonstra outra máscara do seu ser. Se antes aparentava um homem equilibrado, racional, revela ser um homem fraco, mimado como uma criança.

No final apaixonam-se, contudo, pela primeira vez. Apaixonam-se não pelos códigos morais que os cercavam, mas pelo que realmente são. Pela primeira vez estavam enxergando a alma um do outro. Pela primeira vez relacionaram-se, ali mesmo, no meio do salão. Antes era só sexo, entre desconhecidos que, por acaso, se casariam. Agora,

Até que a morte os separe.

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