Crítica: Aquarius

Por Philippe Leão

Filme: Aquarius

Direção: Kleber Mendonça Filho

Brasil – 2016

Elenco: Sonia Braga; Maeve Jinkings; Irandhir Santos; Julia Bernat; Carla Ribas; Humberto Carrão; Paula de Renor; Thaia Perez.

Aquarius

Aquarius kDepois da elogiadíssima participação no principal prêmio do Festival de Cannes – o qual muitos contavam com a vitória – e a posterior congratulação em Sidney, Aquarius chega aos cinemas no Brasil. A expectativa criada é enorme não só por ser ovacionado por onde passava, mas também por polêmicas políticas que ao tentar enfraquecer, aumentaram a potência de um filme extremamente simbólico.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho, do merecidamente aclamado O Som ao Redor, Aquarius é mais um filme do incrível cinema pernambucano. O surto de um público conservador quanto a obra justifica a doença social que a tempo tenta censurar a arte. Aquarius, porém, é simbólico, a crítica social que se espera do longa depois de tanta exposição se mostra contida, nas entrelinhas na maioria das ocasiões. A crítica serve de apoio para o desenvolvimento narrativo. Apesar de fora das telas à equipe de Aquarius tomar lado, dentro dos limites da câmera, na narrativa que o cerca, não demonstra qualquer característica panfletária apesar de pequenos exageros em alguns diálogos expositivos que buscam reforçar o posicionamento social da obra. Este pequeno problema prejudica os símbolos criados nas entrelinhas à medida que os retira dessa posição e os põe nos holofotes da fala. Felizmente esses momentos são raros e não afetam tanto o desenvolvimento narrativo.

Tudo começa na década de 80. Desde já a predisposição pela Música é apresentada na personagem de Clara ainda jovem, de cabelos raspados à Elis Regina. Com o desenvolvimento deste primeiro ato descobrimos a causa para tal símbolo, Clara havia sido vítima de um câncer. Tia Lúcia, uma interessante personagem, também é desenvolvida neste momento, esta, porém, não apareceria de maneira concreta daqui por diante. A ocasião é justamente seu aniversário, seus sobrinhos-netos – filhos de Clara – proclamam um discurso contando toda sua trajetória de vida. Tia Lúcia se distrai com todos os fatos de sua vida escolhidos pelas crianças e, no final, diz: “Esqueceram de mencionar a revolução sexual”. Uma forma de, talvez, expor aquilo que invadia seus pensamentos no momento do discurso, memórias da liberdade proporcionada pelo sexo concentrada de maneira simbólica em um móvel no canto da sala.

O primeiro ato do longa-metragem poderia, se houvesse uma despreocupação narrativa, ter se tornado inútil a medida que apresenta acontecimentos isolados. Contudo, Aquarius trabalha com a memória de seus personagens, e todos os símbolos marcados em seus passados regressam como um eterno retorno. Mais velha, Clara (Sonia Braga), agora com aproximadamente a mesma idade que tinha Tia Lúcia nos anos 80, detém longos, belos e volumosos cabelos pretos que, a todo o momento, é reverenciado pela câmera de Kleber Mendonça Filho, mais um símbolo ponte entre passado e presente da personagem principal. O móvel continua ali, apesar da reforma na planta do apartamento e de uma mudança no local, no mesmo lugar. O apetite sexual de Tia Lúcia permanece vivo, em Clara. E, claro, o maior dos símbolos, o edifício Aquarius, vítima de uma forte especulação imobiliária que pretende cortar pela raiz os cabelos de Clara, suas memórias.

Até mesmo o câncer da personagem vivida por Sonia Braga é um signo do eterno retorno dos acontecimentos. Ao apresentar a doença como fator importante para o desenvolvimento narrativo, havia o perigo de cair no melodramático. Não, Aquarius permanece firme em sua proposta. O câncer não vive apenas em Clara.

A fotografia trabalha em um contraste de planos abertos e fechados, intercalando com zooms bastante específicos. Alguns planos em contra-plongé abarcam a Clara e o edifício, unindo-os em um. Os planos fechados nos fazem mergulhar em seus sentimentos e memórias. Já os abertos demonstram uma relação de paisagem e poder, contrastando a arquitetura do passado – “velha” como diria a filha de Clara vivida por Maeve Jinkings e que proporciona algumas das melhores passagens – simbolizada pelo edifício Aquarius, e moderna na orla de Boa Viagem em Recife. Essa relação é mais um êxito em construir uma ponte de memória, dessa vez expressa nas formas urbanas.

O brilhantismo de Sônia Braga, lindíssima, expõe o que talvez seja a melhor atuação de sua longa carreira internacional, diga-se de passagem. Apesar de todos os êxitos do filme é ela, Sônia Braga, o carro chefe de Aquarius. Contida, demonstra certa confusão nas palavras, mas uma confusão que parece saber o que está fazendo. É justamente essa contenção que permite que em momentos explosivos não se torne espalhafatoso, berrão, forçado.

Aquarius veio para ficar no cenário nacional e, se o ministério da cultura permitir, internacional. Há grandes filmes brasileiros esse ano, como Boi Neon – também pernambucano – mas nenhum deles é tão grande como Aquarius.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *