O Fetichismo na Indústria Cultural Segundo T. W. Adorno

Por Leonardo Vaz

Atualmente em um mundo cada vez mais globalizado e com o avanço do capitalismo, que contribui para a propagação da cultura de massa, se torna cada vez mais aparente o fetichismo das mercadorias no nosso cotidiano. Adorno, com uma visão sagaz, observou esse fenômeno ocorrendo na cultura e, a partir disso, teceu duras críticas ao que ele chamou indústria cultural que transforma cultura em mercadoria “fetichizada”. Nesse texto pretendemos abordar de forma breve e clara a visão de Adorno sobre esse tema.

Podemos dizer que o termo “fetichismo” surgiu pela primeira vez em 1765 pelo escritor francês Charles Brosses, na obra intitulada Do Culto dos Deuses Fetiches ou Paralelo da Antiga Religião do Egito com a Religião Atual da Nigritia.Nessa obra, o termo “fetichismo” é usado para caracterizar um tipo de pensamento que estava relacionado a cultos de objetos inanimados, animais e fenômenos irregulares da natureza. Mais tarde, em 1867, na obra O Capital,Marx também abordou esse mesmo termo, mas, nessa ocasião, se referindo às mercadorias.

Cena do clipe da música “Comfortably Numb”, da Banda Pink Floyd

Para Marx, a mercadoria possui um mistério, mistério esse que é o ocultamento das características sociais do trabalho, oculta, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total. Por haver esse ocultamento da relação social de trabalho na produção da mercadoria o seu valor de troca não está mais relacionado com a quantidade de trabalho materializado no produto, dessa forma, é adquirido uma valor irreal, como se não fosse fruto do trabalho humano e nem pudesse ser mensurado. Disso nasce uma relação entre coisas e não mais entre coisa e homem. Sendo assim, se dá a transformação do produto de trabalho em mercadoria, “coisas” sociais possuidoras de propriedades perceptíveis e imperceptíveis aos sentidos. O produto adquire uma espécie de autonomia, a mercadoria mesma parece determinar a vontade do produtor e não o contrário. O produto/mercadoria parece exercer um feitiço em relação ao indivíduo.

A indústria cultural surge como consequência do capitalismo e do fetichismo da mercadoria. A cultura é industrializada e transformada em produto, em mercadoria a ser vendida em larga escala e, desse modo, a arte se torna objeto de comércio de entretenimento e da propaganda. Nesse processo de industrialização há uma tendência para o condicionamento da produção estética e, consequentemente, há também o condicionamento do gosto estético das massas para que haja o consumo dessas mercadorias culturais. Há uma cristalização do gosto estético que em certo ponto encontra-se totalmente anulado pelo hábito da repetição e pela sensação de distração (que coloca o espectador em posição não reflexiva) da arte como entretenimento. Podemos citar como exemplo a indústria cinematográfica que atrai espectadores pelo nível de efeitos pirotécnicos que há no filme, pelo efeito 3D que o espectador irá desfrutar, pelo ator ou atriz superstar que todo dia é idolatrado pelos meios de comunicação de massa, ou pela trilha sonora composta por alguma boy band que faz sucesso internacional. A arte perde seu caráter kantiano de “conformidade a Fins Sem Fim”.

Nesse regresso do juízo estético e nulidade da capacidade de escolha por parte do espectador também põe o artista em condição de escravo da indústria cultural, tendo seu terreno demarcado pelas possibilidades de comercialização da sua obra, como único meio de perpetuar sua sobrevivência econômica como artista. Através das limitações e padronizações do objeto cultural a ser comercializado o artista vê-se obrigado à reprodução desses padrões estéticos da indústria. A alienação do gosto estético já chegou ao ponto de pessoas escolherem comprar objetos de arte em que as colorações combinassem com as de móveis da casa.

O “feitiço” das mercadorias pode ser bem exemplificado atualmente com os smathphones. É lançado um determinado smathphone, as pessoas fazem filas nas portas das lojas para poderem ser as primeiras a comprar o novo aparelho, mas alguns meses após é lançado outro smathphone da mesma marca, praticamente o mesmo modelo do aparelho anterior, com basicamente as mesmas funções, no entanto, quem tinha a versão anterior sente a necessidade de comprar o novo lançamento, embora a versão anterior funcione perfeitamente e atenda todas as suas necessidades. Mas o novo lançamento é carregado por uma espécie de feitiço que traz, por exemplo, status pra quem usa, o produto adquire uma certa autonomia em relação aos usuários, os usuários se mantêm confortavelmente entorpecidos pelos produtos (e aqui o termo usuário pode ser usado de forma análoga ao de quando usamos pra nos referir a um usuário de uma droga). De modo similar ocorre na indústria cultural, os produtos culturais adquirem esse mesmo “feitiço” nos consumidores.

A cada dia a visão de Karl Marx e T. W. Adorno se torna mais atual, ao denunciar esses processos alienatórios que se camuflam nas entranhas sociais e pouco são percebidos. Na medida em que esses processos se tornam mais totalizantes do ser também se faz necessária uma maior difusão desses modos de pensar como forma de salvar, entre outras coisas, a potencialidade de comunicabilidade e reflexão da arte, a possibilidade do sentimento de prazer feito por analogias e mediações que as obras de artes autênticas formalmente possibilitam, mas no entanto, estão em estado de solidão, que é a irreflexão e incompreensão do público.

Texto de autoria de Leonardo Vaz permitido pelo autor. Confira o original.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *