Crítica: Fargo

Por Leonardo Carvalho

 

Estados Unidos – 1996

Direção: Irmãos Coen

Elenco: Steve Buscemi, Frances McDormand, William Macy, Peter Stormare.

Fargo

FargoIndicado em sete categorias no Oscar e vencedor de apenas duas estatuetas, “Fargo” foi um dos grandes nomes na premiação, mas acabou perdendo para o bom, porém não melhor, “O Paciente Inglês”. A obra é dirigida pelos irmãos Coen, vencedores do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes pelo filme que será analisado aqui.

A ironia em “Fargo” pode ser percebida já pelo resumo de sua história, sobre um homem – atrapalhado e de pouca persuasão – que planeja o sequestro de sua esposa – isso mesmo – para que possa desfrutar do dinheiro do sogro – rico – na resolução de alguns problemas. A grande questão, porém, é que esse sequestro vai ganhando uma proporção muito grande por causa de assassinatos não planejados, graças ao trabalho não tão bem feito de dois sequestradores que mal se comunicam – um deles é uma espécie de Michael Myers.

Isso, porém, não resume o nível de deboche que existe no longa-metragem. Há vários momentos que esse aspecto aparece, tanto no próprio conteúdo quanto em camadas como a trilha musical. Vamos a alguns exemplos: um dos sequestradores está dormindo enquanto o plano está sendo formado; o carro desses mesmos indivíduos anda sem placa, podendo ser parados pela polícia a qualquer instante; uma mulher grávida de muitos meses é a policial de campo da investigação dos assassinatos.

Esses são alguns modelos do que o espectador pode esperar para rir, ou ficar chocado, sobre o enredo. É preciso falar, ainda, da trilha musical, que aparece para firmar ainda mais deboche. Em outro exemplo, quando os sequestradores estão prontos para executar a ação sobre o rapto da mulher, uma música estranha é subitamente acionada para “tentar” intensificar a cena, mas devido ao que já foi visto em “Fargo”, fica óbvio que isso é uma ironia aos errôneos filmes que já tentaram utilizar esse elemento com a proposta falada agora.

Deixo claro ao leitor que o longa-metragem analisado aqui não passa de uma mistura de suspense – a investigação da policial sobre o sequestro – com humor, que aparece nas partes debochadas. Não é por menos que o subtítulo, “Uma Comédia de Erros”, é uma afirmação do humor sobre escolhas nada corretas e muito mal executadas pela maior parte dos personagens do filme. De acordo com o brilhante trabalho em todas as camadas, “Fargo” poderia ter seu subtítulo facilmente chamado de “Uma Comédia de Acertos”, de muitos acertos, na verdade.

Em outros aspectos, devemos falar da excelente montagem, organizadora de um filme que apresenta uma leva relativamente grande de personagens, todos eles introduzidos com calma e no momento certo. Falando neles, não podemos nos esquecer das belíssimas construções, desde um “lento” Jerry, passando pelos sequestradores – um medroso tagarela e um outro forte calado -, até a policial de fortes traços em suas características, que só é encaixada no desenvolvimento da narrativa.

Esses personagens, assim como toda a ironia falada, não seriam tão cativantes sem as atuações afiadíssimas de todo o elenco. Steve Buscemi se sai bem mais uma vez e mostra o seu potencial de sempre. O destaque também deve ser concedido a Frances McDormand, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante com todos os méritos. O resto do elenco também se sai bem e não só cumpre com a proposta dos seus respectivos personagens, mas enriquecem o filme de qualidade nas representações.

Por último, é preciso falar do grande grau de violência em contraste com a predominância de cores claras. Como o espectador pode ver, a maior parte do tempo do filme se passa nas áreas externas cobertas de neve, sendo que a cor branca cobre praticamente todo o cenário. Para realçar os meios violentos, o vermelho do sangue é destacado na cor clara do gelo, demonstrando o caráter de destaque das mortes, mutilações e do próprio sangue.

Devido a tudo o que foi falado acima, o filme dos irmãos Coen é uma obra-prima, sendo uma das melhores, senão a melhor, dos anos 1990. Mais tarde, o longa-metragem serviria de base para a criação de uma minissérie fantástica, reconhecida pela crítica e pelo público. “Fargo” é atemporal, ousado e merece todo o respeito de toda a história na indústria cinematográfica.

Nota: 10

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