Crítica: Videodrome

Por Leonardo Carvalho

Canadá – 1983

Direção: David Cronenberg

Elenco: Deborah Harry, James Woods, Sonja Smits, Leslie Carlson.

 

Videodrome

 

 

videodromeDavid Cronenberg foi um grande mestre em misturar a fantasia com a realidade. Podemos destacar muito do nonsense em suas obras, contracenando esse aspecto, muitas vezes, com questões ligadas à sexualidade. Além disso, muito do subgênero gore é carimbado nos seus longas. Em “Videodrome – A Síndrome do Vídeo”, há tudo isso em uma mistura de terror com suspense psicológico.

Acompanhamos Max, diretor de um canal a cabo chamado Civic TV, conhecido por apresentar pornografias de todos os tipos, desde as nomeadas “soft” até um tipo mais violento. Um dia, ele recebe em mãos um material que parece ser originado da Malásia, descoberto por um funcionário técnico da emissora.

Esse material, na verdade, é uma obra clandestina de agressividade extrema, de assassinatos reais (o snuff movie), misturado com pornografia, chamada “Videodrome”, “Arena dos Vídeos”. Max, mais tarde, descobre que o “Videodrome” é um programa que tem como objetivo alterar a percepção do indivíduo, confundindo-o a realidade e a ilusão, tudo com a intenção de divulgar o espetáculo ao mundo.

O espectador acaba, consequentemente, embarcando nessa dualidade, sem saber distinguir muito bem o que é fantasia e o que é realidade. Alguns momentos mais “loucos”, se é que podemos chamá-los assim, são símbolos muitas vezes, abrindo espaço para diversas interpretações, algumas mais subjetivas, outras mais objetivas. O que, de fato, sabemos, é que a manipulação feita do programa sobre o homem é real, e ele possui um objetivo.

Falando em símbolos, alguns trechos devem ser comentados. Um deles é quando uma arma está entrando no corpo do protagonista, profetizando o que acontecerá com alguns personagens, além de deixar como metáfora o sexo violento, pois a abertura na altura da barriga de Max lembra os lábios vaginais e ela é penetrada por uma arma. Depois, nessa mesma abertura, uma fita cassete entra no seu corpo, como a arma, evidenciando que o homem agora faz parte do “Videodrome”.

Todo esse trabalho simbólico não seria possível se não fosse a boa atuação de James Wood, mantendo regularmente um trabalho de posicionamento perfeito junto aos enquadramentos. Não só ele, mas a atuação de Debbie Harry (Nicki Brand) e Sonja Smits (Bianca O’Blivion) cumprem muito bem com o seu papel em torno de certa sexualidade. A sexualidade também aparece como peso, aspecto esse transportado com facilidade ao espectador, comum nos filmes de Cronenberg. O gore, como foi falado acima, também possui esse papel de conceder peso, criando cenas de impacto através de mutilações ou mortes sanguinárias.

Finalmente, devemos destacar o melhor aspecto do longa-metragem. A iluminação é excelente, muitas vezes criando um ambiente obscuro e gradativamente (de maneira crescente) mais inseguro ao personagem protagonista, ainda mais quando está em conjunto com uma trilha musical pontual no suspense. Em outros casos, vemos que a própria iluminação cria outro tipo de atmosfera, desta vez voltada ao caráter sexual, interessantíssimo à proposta.

“Videodrome – A Síndrome do Vídeo” é certamente um dos filmes mais importantes de David Cronenberg e se aproxima de uma obra-prima por sua excelência técnica, pelas reflexões pautadas do enredo. O longa-metragem analisado aqui é, de fato, um dos mais importantes dos anos 1980, um filme fundamental na afirmação da carreira do cineasta canadense, um filme que espetou com uma ponta afiadíssima os meios de comunicação.

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