Crítica: Trago Comigo

Por Leonardo Carvalho

 

Trago Comigo

 

Brasil – 2016

Direção: Tata Amaral.

Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Felipe Rocha, Georgina Castro.

Trago Comigo posterUm ex-participante da Luta Armada contra a ditadura militar tem a vontade de voltar a dirigir peças. Para isso, precisa encontrar um bom texto e um elenco compatível com o intuito de fazer uma apresentação de qualidade ao financiador da obra. O passado do diretor, porém, desequilibra sua razão e desencadeia uma série de fatores emocionais, de alguns até mesmo esquecidos, já que a peça é baseada num acontecimento fatal da sua vida.

De começo, percebe-de que existe uma mescla entre depoimentos de vivenciados das torturas militares, vítimas, e a busca pela peça sobre o ex-combatente contra a ditadura. Há uma transição entre o falso documentário, visto com menos frequência, servindo apenas para contextualizar a seriedade do assunto, além do drama ficcional, do mesmo tema.

A colocação dos depoimentos de vítimas da ditadura militar é interessante, mas acaba sendo prejudicial à estrutura, pois interrompe o ritmo da trama de linha central e seus personagens. A ideia de denúncia é bastante positiva, mas não consegue ser encaixada com maestria na coordenação da montagem.

Sobre o fio principal da narrativa, conduzindo o passado desequilibrado de um personagem principal, há dois momentos protagonistas que devem ser destacados: o ensaio e a encenação final. Sobre este, é perceptível que acontece uma direção coerente, mas esta é prejudicada por um roteiro que adota diálogos para explicações pouco espontâneas, com o intuito de ambientar o espectador, como na conversa entre Telmo (diretor) e Lopes (uma espécie de financiador), quando aquele diz que trabalhou no antigo espaço em que estão conversando, um tanto desnecessário, já que seus olhares traduziam um sentimento nostálgico. Ainda que o teatro tenha muito diálogo e isso é extremamente válido, o cinema não  pode se gabar disso, por isso essa ênfase.

A encenação final não conduz erros, o que é excelente para que haja determinado vislumbre acerca da peça tão dura de trabalhar, como é mostrado ao longo da narrativa. Através de gestos hiperbólicos e de maquiagens chamativas, o espectador entende que está no cinema, mas sente a essência teatral, o que é muito positivo, pois uma das principais propostas do filme é essa.

Antes disso tudo, o cotidiano do diretor é mostrado rapidamente, sobre seu passado misterioso, suas vagas lembranças com Lia (mulher quem amou e pouco sabe dela) e seu romance com Monica, quem se torna atriz de sua peça posteriormente. Esse é o pior momento do longa-metragem. A representação de Monica é bastante forçada nesse momento, há mais diálogos desnecessários e o afeto dos dois personagens é mal aproveitado. Sobre Lia, a conclusão de ideias é previsível e o seu “mistério” não convence pela razão de nesse período histórico haver casos tão ou mais graves, como já estava sendo mostrado nos depoimentos.

Felizmente, o roteiro se salva de uma narrativa pouco convincente por seus personagens bem construídos, desde a nomeação a personalidades. Em paralelo, o elenco é interessante, com exceção da já citada atuação de Georgina Amaral (Monica), mas é justo dizer que ela é prejudicada pela direção por causa dos inúmeros planos fechados. Diferente, o protagonista mostra-se competente e sabe administrar suas expressões nos muitos close-ups. O resto do elenco cumpre com a proposta das suas figuras.

De acordo com o que foi visto acima, entende-se que há acertos e erros. “Trago Comigo” não é um desastre, longe disso, mas não chega aos parâmetros de um bom filme. Tata Amaral, que acertara em “De Menor”, erra no seu longa-metragem mais recente, indo contra a corrente dos ótimos filmes brasileiros independentes dos últimos anos.

Nota: 5

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