À Janela do Expresso Oriente – Uma Análise entre Hitchcock e Agatha Christie

Por Leonardo Carvalho

 

Aghata x Hit

 

Para estrear uma comparação direta entre literatura e cinema no Cineplot, decidi escolher um dos meus diretores favoritos e uma autora que tenho lido recentemente. Bem ou mau, ambos firmaram seus nomes na história de suas respectivas linguagens, principalmente no campo do suspense. Alfred Hitchcock e Agatha Christie são seus nomes.

Mesmo atuando em códigos artísticos distintos, os dois têm muito em comum. Em primeiro lugar, é bom destacar toda a atmosfera misteriosa na maior parte dos seus trabalhos. Percebe-se, outrossim, que migram diversas vezes ao terror em alguns elementos. Eles também priorizam, na maior parte dos casos, personagens de identificação fácil, ainda que sejam suspeitos.

O peso psicológico do suspense ou o grotesco do horror variam de obra em obra. Hitchcock, por exemplo, assina mais os sustos e uma iluminação mais escura para compor um ambiente mais carregado em “Psicose”, ou joga o incômodo pelo silêncio, causando uma agonia absurda em “Os Pássaros”. Bem-sucedida, Agatha Christie traz uma mistura incalculável de mistéiro e terror  em “O Caso dos Dez Negrinhos”, uma aproximação de obra-prima do gênero. Podemos afirmar que “Um Corpo que Cai” está para Hitchcock, assim como “O Caso dos Dez Negrinhos” para a autora, em relação a obras mais importantes para cada um deles. Não só isso, mas ambos possuem semelhanças sobre o thriller criado ao lado de uma atmosfera de insegurança gigantesca.

Sendo discrepantes, o cineasta utiliza com mais frequência vilões “perfeitos” – Norman Bates, pássaros ou até o psicológico duvidoso de um homem engessado – para aguçar mais o espectador, já Christie prefere por não jogar de forma prematura quem é o antagonista, mas convida o leitor para participar das suas investigações. Falando nisso, há diferenças de protagonismo. Enquanto a autora escolhe seu medalhão em muitas narrativas, o detetive Hercule Poirot, o cineasta distribui, em suas adaptações, personagens principais de oposições, ora beirando a força, ora beirando a fragilidade. “Psicose” mais uma vez pode ser utilizado como exemplo, pois Marion Crane mostra-se com autoridade no começo, mas gradativamente perde sua autoconfiança.

Trazendo um pouco dos coadjuvantes, o diretor inglês também gosta de trabalhar com mulheres de forte personalidade – “Disque M Para Matar”, “Janela Indiscreta”, “Um Corpo que Cai”. Ao contrário, Christie preza em seus secundários um grupo grande de pessoas, pois gosta do jogo “Who done it?”, ou “Quem fez isso?”. Através de detalhes dados ao longo do romance, a autora joga um caso quase que impossível de solucionar, como em “Os Cinco Porquinhos”, ao lado de um núcleo enorme de personagens, para que, em cada página virada, o leitor se confunda e troque de posição o tempo todo sobre sua percepção de quem é o assassino.

Sobre o que foi dito no primeiro parágrafo, os dois marcaram, por bem ou por mal, suas linguagens de publicação. Christie possui um acervo muito maior do que a quantidade de filmes da carreira de Hitchcock, embora este possua uma larga filmografia. Ambos tiveram oscilações técnicas em seus respectivos conjuntos, mas comparar um livro com um filme é um equívoco, por isso fica difícil dizer quem foi o melhor em seus respectivos campos de atuação. É bom deixar claro que o cineasta talvez tenha sido mais influente ao cinema do que a autora inglesa à literatura, mas isso se levarmos em conta aspectos narrativos, não de qualidade. Hitchcock aprimorou técnicas para a produção do suspense e Christie também possui seus méritos, principalmente pelas tramas inteligentes.

5 comentários em “À Janela do Expresso Oriente – Uma Análise entre Hitchcock e Agatha Christie

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  • 14 de junho de 2016 em 01:38
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    Muito interessante a proposta. Mas gostaria de fazer uma observação: Hitchcock desprezava o “whodunit” (o famoso “quem matou?”, chegando a citar diretamente a sua conterrânea Agatha Christie. Isso está no livro de entrevistas concedidas a François Truffaut. A diferença apontada pelo diretor é que a tensão e o suspense deveriam ser construídos, no caso do cinema, pela própria linguagem do filme ( sua mise-en-scéne, fotografia, etcc.). Ou seja, para ele não importava o espectador ter claro quem eram os vilões ou mesmo como poderia acabar a história. Não se tratava do roteiro, mas como os diferentes elementos do filme construíam esta atmosfera. Isso está até esboçado no texto, mas faltou pesquisar mais elementos da linguagem do cinema, assim como da literatura, no caso da Christie. Afinal, livro e filme não é só história.

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    • 14 de junho de 2016 em 19:29
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      Olha, Gabriel, em momento algum foi falado que Hitchcock gostava do “whodunit”. Em outro ponto, na conclusão deixei claro que não é possível comparar livro com filme, isto é, ambos não são apenas histórias, mas narrativas, construções.

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  • 21 de junho de 2016 em 15:45
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    Desculpa se não me fiz entender. Eu compreendi que você não fez esta afirmação sobre o “wodunit”. O que eu quis dizer é que esta diferença entre estes dois (Hitchcock e Christie) traz muitos elementos para pensar a linguagem do cineasta inglês. Acredito que o texto poderia explorar mais temas relacionados à linguagem do cinema e da literatura, para além da história. No mais, gostei muito do artigo, pois traz uma discussão muito interessante, de autores que gosto muito.

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  • 15 de julho de 2016 em 01:46
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    Assim como o Cineplot apresenta elementos filosóficos nos filmes, fiquei bem contente em ver esse mesmo contexto com livros. Ótimo projeto, espero que venham mais.

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