“A Bruxa” e aquele 1%

Por Philippe Leão

*o texto pode conter spoiler

A Bruxa 2A Bruxa

O marketing foi pesado. A Bruxa tornou-se o filme de terror mais esperado de 2016. Ao tempo que a expectativa crescia as desconfianças ao mesmo aumentavam. E o resultado?

O filme dirigido pelo estreante Robert Eggert é primoroso em sua proposta. Apresenta uma narrativa ontológica, mitológica, do sagrado e profano. As crenças são apresentadas como tal, não há qualquer confirmação das experiências cristãs. Os personagens têm fé em algo que é invisível aos olhos – afinal, esse é o significado da fé – e a câmera não captura, em momento algum, aquilo o qual creditam. O filme vive em um mundo terreno em que os personagens são assombrados por suas mentes, por um mundo inteligível, metafísico, religioso. As narrativas do mito estão sempre presentes, construindo cada um dos personagens. O mito, diferente do que pensa o ocidente, não é uma mentira, é a maior das verdades. Somos o que as narrativas nos tornam. Isso A Bruxa nos mostra, os personagens são conduzidos pelas narrativas de suas crenças jamais materializadas.

O filme se constrói em uma ambientação aterrorizadora, o que é ampliada por se tratar dos medos internos de suas próprias crenças. Eventos sobrenaturais ficam na questão da palavra, das narrativas, sempre presentes para os personagens e espectadores, mas longe de estar visível no campo físico do enquadramento fotográfico. A ameaça é um vazio, o desconhecido provoca o medo do próprio ser.

Contudo, o famoso e recente jargão é lançado. Sabe aquele 1%? Se o filme vinha se construindo 99% perfeitamente, o final vem para acabar com tudo que vinha se revelando.

Antes de tudo, é preciso ter uma percepção básica do que é a montagem em um filme. Este elemento técnico – talvez o mais importante da arte cinematográfica – deve ser percebido ao modo da ética aristotélica, ao final. O julgamento é posterior. A análise da montagem de partes separadas pode ser eficaz didaticamente, ou perceber determinados elementos de maneira única. Contudo, a análise do todo se faz necessária para a compreensão do sentido. Como diz Spinoza em sua teoria dos afetos, os encontros com o mundo nos torna o que somos, com o filme não é diferente, à medida que se desenvolve, um quadro altera o outro até o fim e, apenas no final, temos a conclusão do todo. Então, se 99% do filme é perfeito, aquele 1% pode estraga-lo de maneira completa.

Em primeiro lugar, A Bruxa opta durante toda sua extensão em não revelar os medos, em ficar numa narrativa aprisionada nas crenças e no psicológico de seus personagens. Seu final, porém, revela, destruindo todo o ambiente antes construído. Isso é simples, muitos filmes de terror cometem a mesma falha, não mereceria um artigo somente para isso. O problema é maior.

A Bruxa

A revelação apresentada ao final contraria todo ambiente criado no decorrer do filme. Se o filme tratava do medo de suas próprias narrativas, mitos e crenças, o final estereotipa, como já antes feito na história da humanidade, a caça as bruxas. Se antes o vilão era a própria crença, agora é a bruxa, o paganismo. O final não é apenas um lugar comum, como também uma forma ambígua de apaziguar as críticas para com as crenças e revelar-se inteligível, demonstrar que esse mundo narrativo vive fora das narrativas. Resumindo, o final muda o sentido do filme, se torna outra coisa, revelada, estereotipada, unidimensional.

Assim, A Bruxa é aquele filme que com apenas 1% consegue desperdiçar 99% de uma primorosa experiência visual e sensorial. Ao menos o longa-metragem tem muito para nos ensinar sobre montagem, em seus aspectos positivos e em seu tenebroso aspecto negativo da análise do todo.

One thought on ““A Bruxa” e aquele 1%

  • 31 de maio de 2016 at 15:33
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    Até agora foi a maior decepção do ano em filmes de terror, já que Boneco do Mal a maioria já esperava que fosse fraco.

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