Crítica: Certo Agora, Errado Antes

Por Philippe Torres

 

Filme: Certo agora, errado antes

Nome original: Jigeumeun matgo geuttaeneun teullida (eng: Right now, wrong then)

Direção: Hong Sang-soo

Coreia do Sul – 2015

Elenco: Jae-Yeong Jeong; Kim Min Hee; Ko Ah-sung; Joon-sang Yoo

Right now, wrong then

Certo Agora, Errado AntesPara o diretor sul coreano Sang-soo (A Visitante Francesa) o cotidiano parece ser sempre algo muito interessante que merece ser contado. Em certo momento do filme, inclusive, o diretor de cinema Ham Cheon-soo (Jae-Yeong Jeong) afirma ser a rotina importante. Se o filme é como um todo uma metalinguagem deste pensamento, o diálogo apenas o confirma. A rotina é filmada por Sang-soo com uma intensidade paradoxalmente sutil e potente, lembrando em muitos momentos Eric Rohmer e seus seis contos morais. Seria este o sétimo?

O filme conta a história de um diretor de cinema, Ham Cheon-soo, que, por engano, chega um dia antes a cidade de Suwon, onde fará uma palestra após a exibição de um de seus filmes. Sem muito o que fazer, Ham visita um palácio restaurado, lugar onde conhece a jovem artista plástica Yoon Hee-jeong (Kim Min Hee). A partir desse encontro os dois começam a construir uma relação que vai se aprofundando a cada instante: enquanto comem sushi no jantar, bebem soju com os amigos, visita o estúdio da pintora. Enfim, nos pequenos momentos. Um amor platônico se desenvolve e, como tal, desejo.

Se a semelhança temática entre Rohmer e este filme é clara, narrativamente Sang-soo se diferencia ao apresentar duas histórias da mesma história. Cabe interpretação. Se na primeira metade do filme podemos ouvir o pensamento de Ham Cheon-soo, na segunda isso não é possível. A técnica narrativa pode nos fazer acreditar ser uma história contada sob o ponto de vista de Ham em primeiro momento, e a verdadeira em segundo. Contudo, seria muito simples. Mais que isso, Sang-soo, que também escreveu o roteiro do filme, é irônico. Se temos a impressão de estar assistindo duas vezes a mesma história, elas se mostram completamente distintas em suas semelhanças. Até mesmo as rotinas são alteradas por pequenos acontecimentos, conflitos, até mesmo diálogos. Uma proposta como essa, dois filmes em um, rotina e mudança de rumo dos acontecimentos por pequenos detalhes só poderiam ter resultado caso fossem fruto de um grande roteiro: e é.

A fotografia compactua com o forte do filme, as relações, o dialogo. Assim, os enquadramentos apresentam um modelo estático que nos faz estar presente na cena, quase sem cortes, em longos planos sequencias que contribuem, inclusive, para demonstrar o incrível talento de Jae-Yeong Jeong (Mr.Vingança) e Kim Min Hee (Assassino Profissional). Enquanto o personagem de Jae-Yeong é desconcertado pelo desconhecimento da personagem de Kim, está demonstra uma timidez proposta por pequenos gestos visíveis graças as longas tomadas estáticas.

Vencedor do Leopardo de Ouro de melhor filme e melhor ator no festival de Locarno 2015, “Certo agora, errado antes” é um filme intimista, minimalista, rotineiro, mas incrivelmente encantador. Ao certo um dos melhores do primeiro semestre brasileiro.

Nota: 9,5

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