Crítica: A canção mais triste do mundo

Por Fernando Boechat

 

Título original: The Saddest Music in the World 

Direção: Guy Maddin

Canadá – 2003

Elenco: Isabella Rossellini; Mark McKinney; Maria de Medeiros

 

 

 

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saddest music

 

Assistimos ao filme de Maddin sob uma lente espectral, através de uma bola de cristal que neva em seu interior, mas que também revela segredos do futuro e do passado, nossos e de seus personagens.

É nessa atmosfera cristalina que as imagens mais claras reluzem como flocos de neve diante do sol, criando uma estética preto e branco bem particular.

Estamos em Winnipeg, 1933, nas profundezas da Grande Depressão. Temos Chester Kent com sua namorada, Narcissa, voltando da consulta de um oráculo que acabara de lhe prever um mau futuro… Pegam o trem noturno em que é iniciado um diálogo pelo maquinista.

Maquinista: É americana?

Narcissa: Não. Sou uma ninfomaníaca.

Maquinista: Desde que não seja americana, pode ser o que quiser.

Narcissa: Bem, ele é americano.

Maquinista: Está enganada. Ele pode feder como um americano, mas lhe asseguro que é 100% canadense.

A estação final do trem é na cervejaria Muskeg, que anuncia um concurso internacional para ver quem consegue realizar o número musical mais triste do mundo, recompensando o vencedor com uma fortuna.

Nosso “protagonista” Chester Kent tentará conseguir o prêmio. Ele no passado se envolveu com a juíza e realizadora do evento, Lady Helen Port-Huntley (Isabella Rossellini), o que resultou em uma tragédia para ela e para o pai de Kent (o maquinista), que tinha um relacionamento oficial com ela e por quem era apaixonado.

Chester Kent é um personagem hedonista e imune ao sofrimento, seu comportamento se volta contra sua família, roubando a mulher de seu pai e de seu irmão, esta última fugiu de casa após a morte de seu filho e passou a se relacionar posteriormente com Kent, em um estado de loucura e sem recordar de seu passado.

Há algo curioso aqui. O filme se passa no Canadá, Chester é canadense, assim como seu pai e irmão, mas faz questão de se dizer americano. O filho traidor do Canadá, que representa os Estados Unidos, é um homem de negócios cínico e bon vivant, sempre buscando deinheiro e prazer, sem se importar com as consequências de seus atos.

É dele que surge uma reflexão filosófica interessante. Ele não acredita que seja  necessário tristeza para poder competir, mas fazer um grande espetáculo. Mais tarde isso seria confirmado ao passar por um funeral.

As pessoas naquele local estão fazendo um uso espetacular de suas tristezas, melhor dizendo, estão efetuando uma performance, assim como as carpideiras o fazem. A tristeza exposta em público mostra mesmo uma verdade ou apenas simula uma dor aos outros para conseguir inspirar compaixão ou outra coisa qualquer?

Apesar de ser um filme que envolve uma disputa de tragédias para se alcançar um prêmio, isso não é mostrado de forma trágica, mas com leveza. Os personagens parecem representar uma caricatura de si próprios, tendo seus dramas e defeitos acentuados a um nível cômico.

O concurso montado na cervejaria é apresentado como um programa de auditório contemporâneo no estilo mais sensacionalista possível. Em que os participantes remoem suas dores enquanto se apresentam para mostrar como seus sofrimentos superam aos dos demais concorrentes.

A crítica interna ao filme relativiza o drama pessoal dos personagens e revela seu caráter mesquinho. E é justo nesse sentido que o personagem de Chester Kent, o menos marcado por dramas pessoais, deixa de ser um posível vilão ou o mais desprezível dos homens.

Isso ocorre porque é justo ele que foge da lógica do apego às próprias misérias, esse apego abjeto que busca se vingar de quem lhe fez mal ou fazer com que todos se sintam culpados por suas dores

Maddin nos contorna então pela via cínica, construindo um canalha coroado, mas que não deixa de pagar por seu estilo de vida desgraçado. Pois se a dor é uma forma de se apegar a própria história, viver imune a ela é uma forma de querer trapacear a vida, pois o prazer daquele que é imune ao sofrimento é um prazer artificial e hedonista.

Numa análise mais detida vemos que todos são igualmente egoístas, seja pelo apego de suas dores pessoais que o cegam para o mundo, seja pelo cinismo e vontade de querer tudo para si sem se importar com ninguém.

O diretor consegue nos mostrar um filme que em seu conteúdo se apresenta além do bem e do mal, superando a moral familiar e criando uma sátira. Nos recheando também de elementos simbólicos e uma estética peculiar que alterna do preto e branco para lentes azuladas e coloridas quando se quer apresentar a memória de algum personagem.

Isso é particularmente curioso, pois é nas lembranças pessoais que a imagem fica mais nítida, criando um estranho realismo em seu filme, um realismo da memória.

O tempo “normal” da narrativa, aquele que se apresenta não como memória pessoal, mas como tempo vivido, acaba ganhando também aspecto de uma memória coletiva, um tempo e acontecimentos possíveis na Winnipeg da década de 30.

Nota: 9,0

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