10 Filmes do Neorrealismo Italiano

Por Philippe Torres


Os movimentos cinematográficos, em geral, nascem da inquietação dos seus autores em relação ao mundo em que vivem. Somando isso a sua vontade de potência, háentão elementos característicos que os fazem ser distintos dos demais. É importante ter em mente que nenhum movimento é iniciado como predestinação, como foi dito, emerge das experiências cotidianas. Sabendo disso, deve se levar em conta o momento histórico no qual a Itália estava inserida quando surge o Neorrealismo. Durante o período da Segunda Guerra Mundial, é sabido que a Alemanha Nazista dominava o território italiano. Nesse período, em meio a um governo autoritário, a Itália produzia cinema, contudo, pautava-se com maior força em um cinema documental de onde um grande diretor iria emergir: Roberto Rossellini. Pôs-se fim à guerra, o país estava completamente abatido econômica, social e moralmente. A produção visual não queria mais as mentiras hollywoodianas. O momento histórico era desastroso, a verdade precisava subir ao palco onde vivia a mentira. Dessa forma, a Itália passa a produzir um cinema ficcional, mas que guardava semelhanças estéticas com o cinema documental que produzira, contudo, agora, havia um conteúdo crítico que seria a marca do movimento. Um cinema marxista. Rossellini foi responsável por aquele que seria considerado o primeiro filme do movimento: o imperdível, “Roma, Cidade Aberta”. Basicamente, o filme conta a história da ocupação nazista no território italiano, contado pela visão dos conterrâneos (antes apenas a visão nazista era permitida). A realidade plena jamais fora transmitida com tamanha verossimilhança como nos filmes italianos desse período. Talvez, a principal característica técnica, que faz ser isso possível, é a ausência de cenários montados, grandes sets de filmagens criados para a ficção. O mundo real é filmado e, mesmo antes ou depois da presença da câmera, este foi assim. Dessa forma a imagem tinha a capacidade de transmitir a ideia de realidade por meio das coisas. Sabe-se que a casa, a cidade, os objetos são uma extensão antropológica do humano, sendo esses transmitidos por meio da imagem como realmente são. Temos o neorrealismo, fortíssimo em seus signos. Sabida tal técnica, é possível analisar o que talvez seja o filme mais importante do movimento e um dos mais emblemáticos de todos os tempos: “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica. Conta a história de uma família no pós-guerra e um pai, que após um longo período, consegue finalmente um emprego. Para isto, era necessário uma bicicleta. A família vende todos os seus pertences para
comprar o objeto e, no primeiro ponto de virada, esta é roubada. O objeto, mesmo ausente durante grande parte do filme, ganha vida. É importante saber que os atores, em sua grande maioria, eram amadores, isso para trazer maior noção de realidade. A estética do movimento é uma das mais influentes da história do cinema, inclusive para o brasileiro. Filmes como “Rio 40 Graus” e “Cidade de Deus”, que contam a história da favela carioca, utilizaram das técnicas neorrealistas para transmitir maior veracidade, trazendo moradores para contracenar nos filmes. Para todos os cinéfilos, amantes da sétima arte, o neorrealismo italiano é imperdível, mas saiba, não espere encontrar finais felizes, essa não era a realidade encontrada no país, à época.
  • Ladrões de Bicicletas
 
 
Direção: Vittorio de Sica
A história se passa logo após a Segunda Grande Guerra, com a Itália destruída e o povo passando necessidade. Ricci consegue um emprego após muita espera. Só que esse emprego, de colador cartazes na rua, lhe pedia como obrigação uma bicicleta. Ricci e sua mulher Maria conseguem um dinheiro para uma, possibilitando que ele realize o seu trabalho. Há também o menino Bruno, filho do casal. Fascinado por bicicletas, o menino cai de cabeça com o pai na busca pela bicicleta que lhes foi roubada, quando Ricci trabalhava apenas em seu primeiro dia.
  • Obsessão
 
 
Direção: Luchino Visconti
Itália, início dos anos 40. No miserável Vale do Pó, Giovanna (Clara Calamai), a frustrada dona de uma pensão, planeja com o amante Gino (Massino Girotti, de Teorema) o assassinato do marido.
  • Umberto D
 
 
Direção: Vittorio de Sica
Na Itália do início dos anos 1950, enquanto a economia do país renasce, os idosos sofrem com as miseráveis pensões dadas pelo governo. Em Roma, Umberto Domenico Ferrari, um funcionário público aposentado, é despejado por não conseguir pagar o aluguel de seu quarto. Na companhia de seu único amigo, o cachorrinho Flik, Umberto vaga pelas ruas, buscando apenas um objetivo: viver com dignidade.
  • Arroz Amargo
 
 
Direção: Giuseppe De Santis
Produção dividida entre o realismo social e o melodrama passional que projetou mundialmente o cinema italiano e revelou um dos grandes mitos eróticos do pós-guerra: Silvana Mangano. A denúncia das duras condições de trabalho das plantadoras de arroz, no vale do Pó, fez com que milhares de espectadores se divertissem pela ingênua e transbordante sensualidade da atriz, então estreando. Ao seu lado brilharam astros como Raff Valone, que seria galã em numerosas produções internacionais, e o excêntrico e versátil Vittorio Gassmann. O diretor, Giuseppe de Santis, foi um dos idealizadores do movimento neo-realista.
  • Roma, Cidade Aberta
 
 
Direção: Roberto Rosselini
Roma, 1944. Um dos líderes da Resistência, Giorgio Manfredi (Marcello Pagliero), é procurado pelos nazistas. Giorgio planeja entregar um milhão de liras para seus compatriotas. Ele se esconde no apartamento de Francesco (Francesco Grandjacquet) e pede ajuda à noiva de Francesco, Pina (Anna Magnani), que está grávida. Giorgio planeja deixar um padre católico, Don Pietro (Aldo Fabrizi), fazer a entrega do dinheiro. Quando o prédio é cercado, Francesco é preso pelos alemães e levado para um caminhão. Gritando, Pina corre em sua direção e é metralhada no meio da rua. Giorgio foge para o apartamento de sua amante, Marina (Maria Michi), sem imaginar que este seria o maior erro da sua vida.
  • Vítimas da Tormenta
 
 
Direção: Vittorio de Sica
Um retrato das crianças de rua na Itália pós-guerra. Giuseppe e Pasquale são duas das crianças, dois grandes amigos que vivem de lustrar os sapatos de soldados americanos. Eles dividem suas esperanças e seus sonhos inocentes de um futuro melhor, mas acabam presos numa terrível instituição para menores.
  • Paisá
 
 
Direção: Roberto Rosselini
No segmento inicial um soldado americano, Joe (Robert Van Loon), tem a tarefa de proteger uma jovem siciliana, Carmela (Carmela Sazio), em um castelo velho abandonado. Ela nada diz ou demonstra alguma emoção, enquanto Joe tenta suplantar a barreira do idioma. O 2º segmento se passa em Nápoles, nele um soldado americano negro tem seus sapatos roubados por um moleque de rua. Ele procura pelo garoto e descobre que o menino vive com vários napolitanos sem-teto. O 3º segmento se passa em Roma, nele um outro soldado americano, Fred (Gar Moore), chega na cidade com seu tanque e lhe é oferecida água por uma amável jovem, Francesca (Maria Michi), e ele rapidamente se sente atraído por ela. Meses mais tarde ele está bêbado e a encontra novamente, quando ela caminha pelas ruas procurando “clientes”. Ele então se lembra de Francesca, mas não percebe que a prostituta e Francesca são a mesma pessoa. O 4º episódio acontece em Florença, quando uma enfermeira americana, Harriet (Harriet Medin), e um guerrilheiro italiano tentam atravessar as linhas alemãs. No 5º segmento há 3 capelães americanos: um católico, um protestante e um judeu, que pedem para monges franciscanos autorização para passar a noite no monastério deles. Os monges estão desacostumados com religiosos protestantes e judeus, mas descobrem que estão todos unidos sob o mesmo Deus. No 6º capítulo há um forte tiroteio entre forças britânicas e alemãs, em que há grandes perdas para ambos os lados.
  • Terra Treme
 
 
Direção: Luchino Visconti
Pescadores são explorados pelos comerciantes locais. Uma das famílias tenta escapar da situação fundando seu próprio comércio, mas não consegue ajuda.
  • Alemanha Ano Zero
 
 
Direção: Roberto Rosselini
Em Berlim, após o final da 2ª Guerra Mundial, Edmund (Edmund Moeschke), um garoto de uma família muito pobre, trabalha para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão, que não tem documentos. Um dia, ao conversar com um antigo mestre (Erich Gühne), fala do seu pai enfermo e entende ter recebido um conselho para matar seu pai, um peso morto. Ele começa a pensar na idéia.
  • Belíssima
 
 
Direção: Luchino Visconti
Madalena Cecconi faz de tudo para que sua filha, a pequena Maria, torne-se estrela de cinema. Assim, acaba levando a menina para disputar concurso que apontará a protagonista do filme de um famoso cineasta. É o início de uma série de desilusões.

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