Crítica: Rua Cloverfield, 10

Por Leonardo Carvalho

Direção: Dan Trachtenberg
Estados Unidos – 2016
Elenco: John Gallagher Jr.; John Goodman; Mary Elizabeth Winstead; Bradley Cooper; Cindy Hogan; Douglas M. Griffin; Frank Mottek; Jamie Clay; Mat Vairo; Sumalee Montano; Suzanne Cryer.

Cloverfield, 10

CloverfieldA abertura de “Rua Cloverfield, 10” já chama atenção pela razão de não utilizar falas para que seja explicado o destino de Michelle, uma menina que foge de um término e se muda para outra cidade. Há inúmeros casos, de obras antecessoras, que utilizam os diálogos para que haja a descrição, um tanto prejudicial.

Esse silêncio é interessante por fazer o espectador ficar preso dentro daquele ambiente da moça e acompanhá-la em cada movimento, por isso, quando já está um tempo na estrada em busca do novo destino, acontece um acidente pesadíssimo, em que o espectador sente o impacto da batida do automóvel através de um som estrondoso, providenciando um grande susto. Após isso, vemos que Michelle está trancada numa espécie de subsolo e é alimentada por um autoritário e bruto homem, ex-membro da marinha, segundo o que diz.

A partir disso acontece uma virada importante, em que não sabemos o que está acontecendo, se ele é um homem confiável ou está criando diversas histórias – contadas ao longo da narrativa – para manter o sequestro de Michelle e um outro homem, tão perdido quanto ela, conhecido como Emmett. Dúvidas cercam o ar por várias oportunidades pois, às vezes pensamos que o sujeito é do bem, mas logo somos descrentes frente às suas atitudes agressivas.

Esse fator é importante por contribuir com as expectativas, já que faz o espectador torcer logo pelo final de forma positiva, para descobrir se o homem é realmente bom ou não, ou melhor, se as histórias que está contando são realmente verdadeiras. Essas histórias são relacionadas a um tipo de infecção na atmosfera, em que o ser humano não consegue aspirá-la com saúde. Percebemos através disso que existem duas expectativas criadas.

O desenvolvimento ocorre de maneira inteligente, visto que existem artifícios para criar humor, através de gestos do homem autoritário e até mesmo no bem-estar de vivência entre os membros daquele porão, quando estão brincando com jogos de tabuleiro ou preparando alimentos. Coincidência ou não, a escotilha em que estão presos, lembra um pouco a de “Lost”, criado pelo produtor de “Rua Cloverfield, 10”, J. J. Abrams. Pode ser uma referência implícita curiosa.

Pequenas viradas tomam conta de todo o segundo ato da obra. Tensão e aguardos são criados em relação a momentos em que Michelle, nossa protagonista muito bem trabalhada pelo roteiro, precisa construir uma roupa que seja impermeável ao gás comentado por Howard, o homem autoritário, um personagem igualmente bem construído, taxado como vilão, mas sempre dando brechas de que não é tão ruim e está realmente protegendo a mulher.

Diferente do primeiro “Cloverfield”, em primeira pessoa e com um monstro devastador sempre focado, “Rua Cloverfield, 10” não é explícito em relação ao monstro, apenas ao final entendemos um pouco do que Howard estava falando, mas um pouco diferente de seus dizeres. Além disso, o falso-documentário não existe mais, pois enquadramentos tradicionais em terceira pessoa são acionados. O narrador acerta muito nos planos, provando motivos de sua escolha, principalmente para a criação do suspense, quando planos próximos limitam o espectador do que está sendo visto, movimentando a câmera em certas ocasiões para converter sustos ou alívios.

Através de boas atuações, um roteiro sólido e uma trilha musical que acompanha muito bem as emoções do longa-metragem, “Rua Cloverfield, 10” acerta em cheio a mistura de suspense e ficção científica. Muito superior ao “Cloverfield: Monstro”, de 2008, o qual também é competente, mas se mostra muito menos construído por excelência que a obra de 2016, uma das boas surpresas do ano, que foge de ser uma sequência direta e elabora uma identificação com o desequilibrado psicológico do claustrofóbico ambiente da escotilha.

Nota: 7,5

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *