Crítica: Para Minha Amada Morta

Fernando Boechat

Crítica: Para minha amada morta

Brasil – 2016

Direção: Aly Muritiba

Elenco: Fernando Alves Pinto; Mayana Neiva; Lourinelson Vladimir; Giuly Biancato

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A câmera constaposter para minha amada mortantemente desfocada nos abre com Fernando (Alves Pinto) sonolento em seu quarto. Parece acordar apenas por obrigação de ter que trabalhar e cuidar de seu filho. Aliás, seu filho parece mais cuidar dele do que o contrário.

Acontece que desde que sua esposa morreu, sua vida perdeu o sentido. Vive agora sentindo o cheiro de suas roupas e observando seus pertences, resgatando os fragmentos daquilo que um dia foi sua mulher por inteiro.

Quando não está trabalhando como fotógrafo criminal, está assistindo os vídeos da sua falecida esposa, desde a infância até os momentos mais próximos de sua morte. É assim que ele passa o tempo com seu filho, nesse clima de nostalgia mórbida.

Essa imagem embaçada, escura e fora de foco nos dá a atmosfera certa dessa letargia obsessiva. Fernando é um voyeur que escolheu se perder nas imagens afetivas que, no momento, são os únicos estímulos que lhe trazem algum conforto, mesmo que lhe causem dor ao mesmo tempo.

É num desses dias, que se repetem indefinidamente, que ocorre um simples acidente com a fita VHS que continha imagens de sua esposa. O rolo da fita se embola, mas ele pacientemente a reconstitui, usando tesoura e fita adesiva. É o vídeo que irá mudar toda visão que ele tinha de sua ex-mulher, Ana, e que faz com que parta para uma investigação igualmente obsessiva.

A tesoura e a fita, para efetuar a junção do rolo, nos remetem ao poder da edição, de como reconstruir algo enquanto o reconstitui. Como fazer de algo já dado, alguma coisa diferente? É aí que começa o estímulo para a ação e de uma mudança no curso dos acontecimentos, agora sob seu domínio.

Ao assistir esse vídeo em particular, a câmera se volta para seu rosto e para a parede atrás dele, que vibra com as cores do vídeo, formando uma aura de perturbação em seu entorno. É o momento em que ele mesmo em seu estado depressivo, conseguirá ter forças para uma investigação e possível vingança ao homem com quem ela mantinha relações sexuais.

O modo como as coisas irão ocorrer passam a ser orquestradas pelo protagonista. A gestualidade e movimento dos corpos são bem mais lentos do que o de costume no cinema, alcançando um realismo maior. Alguns entraves dentro da ação marcam bastante o ritmo, postergando indefinidamente o momento de um alívio violento das tensões.

Enfim, um filme esteticamente interessante que marca a estreia em longa-metragem solo do diretor e que se utiliza bem das imagens para nos envolver na atmosfera inebriante do protagonista, preferindo a narrativa diegética para fortalecer o caráter realista que se pretende.

Nota: 7,5

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