Crítica: Nanook, O Esquimó

Por Leonardo Carvalho
Estados Unidos – 1922
Direção: Robert Flaherty

Elenco: Esquimós

 

Estados Unidos – 1922

Escrever sobre “Nanook, o Esquimó” é um desafio muito grande. Participante da década mais pura da história do cinema, os anos 1920, o longa-metragem é considerado quase uma mitologia, sendo o primeiro documentário.

É nítido o caráter antropológico do filme, que seria uma influência gigantesca aos documentários posteriores. O modo como Robert Flaherty narra o cotidiano da família de Nanook, desde a caça até a construção dos iglus, resulta numa narrativa organizada, muito bem dividida estruturalmente. É interessante notar como a obra funciona nesse caso, numa dualidade de ideias.

Em primeiro lugar, o espectador está no papel de um observador, testemunhando a vida dos habitantes daquele local extremamente gelado. Como foi dito acima, diversas ações de Nanook e seus familiares, incluindo seus cães de neve, são mostradas com bastante naturalidade, como deve ser um documentário. Ainda assim, existem trechos que os esquimós contracenam com o desconhecido aparelho que os filma. Em um exemplo, o sorriso da criança, como se estivesse atuando diante da câmera, por isso Flaherty disse posteriormente que seu filme é como outro qualquer, não apenas um documentário. Este último elemento falado viria a ser uma característica marcante no gênero, mas não dessa forma, seria adaptado numa espécie entrevista, como modelo.

Em outros aspectos que devem ser destacados, um trabalho de montagem espetacular organiza a construção do iglu. Em alguns cortes, mostra-se de forma crescente os primeiros “tijolos”, a formação de blocos de neve, e finalmente a construção arredondada do abrigo, seguida por seus últimos detalhes, como a construção de uma “janela”, através de um bloco de gelo liso. As tomadas dividem muito bem o passar dos dias.

Como se Flaherty já adivinhasse, conseguiu ambientar o espectador na história, como se fosse um filme de ficção. Isso acontece com curtos planos que enquadram os lagos congelados e blocos de gelo de onde o documentário se passará. Como se fossem personagens, os esquimós também são apresentados vagarosamente ao lado dos seus atos.

Vemos através das lentes que gravam os habitantes do norte que o cinema parecia voltar aos seus primórdios, lá para 1895, com o intuito de captar a realidade, distanciando-se da forma teatral que era mais comumente abordada na sétima arte. É óbvio que há uma grande diferença entre os irmãos Lumière e Flaherty, já que o primeiro era mais um experimento, diferente do segundo, que também deve ser classificado como um experimento, mas um experimento de gênero, em que um estilo antropológico foi plantado propositalmente. A evolução do cinema deve muito a esse filme pela razão de cada vez mais o espectador se adaptar à tramas realistas.

De acordo com o que foi visto anteriormente, “Nanook, o Esquimó” é uma referência mundial à história do cinema. O primeiro retrato do homem de acordo com as técnicas cinematográficas lançou uma inovação no modo de filmagem, de um estilo ao filme. Os seguintes documentários lançados gravam geralmente a vida humana, seja em qualquer situação, fruto de uma influência de “Nanook”, da antropologia de Flaherty, embora não tenha sido um antropólogo.

Nota: 10

2 thoughts on “Crítica: Nanook, O Esquimó

    • 5 de junho de 2016 at 15:12
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      Em primeiro lugar, agradeço o comentário. Sobre alguma recomendação literária, lembro-me de ter lido “Kon-Tiki”, sobre um explorador norueguês que vai à Polinésia com o intuito de demonstrar que a região foi colonizada pelos indígenas. Existe também um livro bom, chamado “A Experiência Etnográfica”, mas este é mais teórico.

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