Crítica: Cisne Negro

Por Leonardo Carvalho
 
Estados Unidos – 2010
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Natalie Portman, Winona Ryder, Vincent Cassel, Mila Kunis

Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas pessoais, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis). Em meio a tudo isso, busca a perfeição nos ensaios para o maior desafio de sua carreira: interpretar a Rainha Cisne em uma adaptação de “O Lago dos Cisnes”.
Movimentos como o de um cisne, de braços abertos para a dança no acompanhamento dos passos. Aronofsky parece lembrar Kubrick em “2001”, quando o clássico cineasta realizara um grande balé das câmeras em meio de imagens que remetem o espaço sideral.
A ideia aqui, obviamente não é a mesma, já que estamos nos bastidores de um espetáculo de balé da obra “Cisne Negro”, de Tchaikovsky. O que deve ser destacado é o trabalho detalhado de cada plano que acompanha a movimentação dos braços e das pernas de Nina, de cada troca de espaço em meio aos ensaios. Isso não faz só com que a fotografia lembre a dança como fio central, mas também injeta uma dose de dinâmica em contrapartida às muitas cenas em que há menos movimentos, visto que a protagonista sofre de sérios problemas psicológicos.
Esses trechos mais parados, se assim podemos dizer, carregam bastante firmeza no isolamento da personagem principal. A neutralidade na iluminação e as expressões da atriz mais voltadas à timidez fazem com que haja uma climatização acerca da desconstrução psicológica.
O lado psicológico da obra pode ser interpretado de diversas formas. Sendo subjetivo, o mais plausível dentre os pensados por mim está voltado a falta de autoconfiança da moça, não é por menos que a mesma enxerga feridas onde não existem, fora que, como principal elemento, ela vê a si mesmo em diversas partes, no metrô, por exemplo, nas ruas, ou até mesmo em relações sexuais, sonhos. A causa disso tudo está voltada ao seu não-desprendimento da juventude, muito protegida por sua mãe, por isso se sente tão insegura nos ensaios e frente a momentos em que precisa resolver sozinha.
Com o passar do tempo, porém, vemos que existe o desprendimento da sua juventude logo após uma noite em que saiu com Lilly, uma invejosa bailarina do grupo que parece querer o principal papel do espetáculo. Seus bichos de pelúcia são jogados fora por ela mesma, há brigas com sua mãe dizendo que não possui mais doze anos, fora que ganha uma atitude mais adulta.
Essa transição à sua nova fase acaba trazendo ainda mais transtornos. Um deles relacionado à obsessão com a peça, em que acaba se evolvendo muito com a história. Isso fica claro num momento que a personagem se vê tendo relações sexuais com um cisne antropomórfico. O envolvimento chega a ser tão grande que há um trecho fortíssimo em que ela adquire características da ave.
Em outros termos que ganham intensidade conforme o passar do tempo, fazendo um casamento belíssimo com o conteúdo psicológico falado acima, estão a trilha sonora, a atuação da atriz, os ensaios e as cenas mais fortes. Esses são os principais dentre muitos outros.

O primeiro aspecto é genial, em que Clint Mansell, o autor da melodia muito baseada na obra clássica, impõe tensão conforme o passar do tempo, inclusive em estouros com cenas de susto. A linha melódica vai ganhando força conforme o andar da narrativa, trazendo um impacto ao espectador. Essa trilha musical, os efeitos sonoros, ou melhor, todo o trabalho de som, concede à Natalie Portman momentos mágicos desde seus momentos como uma frágil bailarina até o clímax em que sua representação beira o sublime. Não podemos dizer que só a coordenação de Aronofsky e seu mérito de interpretação a levaram a conquistar prêmios como o Oscar, mas todo o trabalho musical concedeu um choque dramático impressionante.
Os outros dois aspectos estão relacionados mais ao conteúdo. O primeiro em que os ensaios conforme o passar do tempo ficam mais cheios e complexos, cada vez melhores. Como exemplo, os iniciais são os treinos, mais à frente um solo com um violinista, até chegar a um trecho em que os ensaios estão com os figurinos do espetáculo, a orquestra e a coreografia completa. Por último, as cenas mais fortes, feitas com feições de espanto da protagonista, cenas sensuais e até mesmo as transformações em cisne, muito destacadas pelo ótimo trabalho de efeitos visuais.
Um último elemento a ser enfatizado é a valorização de certos elementos de cores por conta da fotografia e direção de arte. O preto, branco, cinza e um rosa bastante claro concede o classicismo do balé e uma atmosfera sombria.
O clímax é o ponto mais alto do filme em termos de qualidade. A estourante trilha musical ao lado da atuação formidável, com planos próximos do cisne, carrega um desfecho chocante. Finalmente, ao encerrar o espetáculo, com a conclusão dramática, há diversos aplausos da plateia frente ao absurdo no palco, em que o diretor com certeza sugeriu o aplauso igualmente do espectador. Da minha parte, permito-me ser subjetivo, conseguiu.
“Cisne Negro” teve cinco indicações ao Oscar e venceu apenas em uma categoria. Sabendo que a premiação não é parâmetro ao melhor do ano no cinema, a obra de Darren Aronofisky é uma obra-prima e de longe o melhor filme de 2010. Tchaikovsky não ficaria desapontado. Um filme que pode ser resumido como um lindo pesadelo.

Nota: 10

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