Crítica: Mundo Cão

Por Fernando Boechat

 

Direção: Marcos Jorge
Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz,    Paulinho Serra
País: Brasil

Tentando abarcar os perigos cotidianos que todos estamos sujeitos a sofrer, temos em Mundo Cão a história de Santana, pai de família que trabalha como agente de zoonoses (homem da “carrocinha”) no subúrbio de São Paulo e que vê o seu destino e o de sua família modificado após sacrificar o querido Rottweiler de Nenê (Lázaro Ramos), ex-policial e mandante em uma máfia de caça-níqueis.

 

O período em que se passa o filme é 2007- antes da promulgação de uma lei que hoje proíbe o sacrifício de animais abandonados- uma época em que esperavam apenas três dias pelo retorno do dono antes de executarem o animal. O criminoso chega logo após seu cachorro ter sido sacrificado por Santana, e, em meio uma discussão acalorada, leva a atitude do agente para o lado pessoal, arquitetando por fim sua vingança.

 

A violência e descaso das instituições públicas é uma das críticas do filme, que coloca diversos personagens em uma situação de impotência frente as injustiças de órgãos que deveriam proteger o cidadão. Uma impotência que não escolhe alvo, visto que o próprio Nenê, temível criminoso que é, também se encontra nessa situação de desamparo.

 

O diretor tenta mostrar a dificuldade e insegurança que um homem pobre e morador de periferia está propenso a sofrer, o que conseguiu com maestria em seu primeiro longa-metragem, Estômago, onde o protagonista tem sua vida marcada pela miséria e tragédia. Só que infelizmente seu mais novo filme não consegue se igualar em talento e as propostas muitas vezes se perdem por algum erro técnico.

 

Em primeiro lugar, temos um roteiro pretensioso, que tenta dar conta de inúmeros conflitos ao mesmo tempo, com algumas críticas sociais, dilemas do tipo justiça pública versus justiça privada. Diversos temas abordados e um número ainda maior de reviravoltas.

 

O dilema justiça pública versus justiça com as próprias mãos, que é um dos motes principais do filme, senão o principal, e que abre margem para um aprofundamento psicológico mais rico, é prejudicado pelo ritmo acelerado demais da história, que faz com que a narrativa não se mostre tão convincente.

 

A trilha sonora alegre, recheada de samba, e o excesso de alívios cômicos também prejudicam a instauração de um clima mais pesado, que seria o mais condizente com a trama, afinal é um filme que trata de vingança. Esses deslizes acabam nos dando a impressão de certa gratuidade de algumas cenas, que acabam criando um contraste excessivo em relação a atmosfera criada.

 

Em compensação, as reviravoltas, por mais que sejam excessivas e atrapalhem a narrativa, são bem inusitadas, nunca nos permitindo prever com segurança o que virá a ocorrer. A atuação de Lázaro Ramos é o ponto alto do filme, consegue dosar na medida certa o aspecto sinistro de seu personagem com algumas tiradas de humor ácido.

 

As cenas que envolvem os cachorros de Nenê também surpreendem. Seja nas cenas que envolvem os procedimentos de captura e intervenção no animal ou em outras que envolvem outros atores contracenando junto aos cães, incluindo aí o próprio Lázaro Ramos que aparece bem à vontade. O que demonstra um trabalho de adestramento bem feito permitindo que não se realizasse uma edição que filmasse atores e cães em separado simulando sua aproximação.

 

Há de interessante também na edição, além do realismo das cenas comentadas no parágrafo acima, uma ou outra cena, como o zoom out em plongée no estádio de futebol, que nos leva de um plano médio na arquibancada para um grande plano geral, reforçando a ideia de que o drama vivido ali poderia ser só mais um dentre vários que não tomamos conhecimento e que se desenrolam a favor do acaso.

 

 

No mais, é um filme formalmente conservador, sem muitas novidades, mas que em um momento ou outro ousa um pouco mais e acerta. As atuações são boas e a história original, o roteiro peca pelo excesso de temas que pretende abordar, mas as reviravoltas nos surpreendem. Por fim, não é um filme ruim, mas está muito distante da qualidade do primeiro longa-metragem do diretor.

Nota: 6,5

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *