Crítica: A Bruxa

Por Leonardo Carvalho

Estados Unidos – 2016
Direção: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor Joy, Ralph Ineson,
Kate Dickie

Nos últimos anos, são raros os exemplos de bons filmes de terror. No ano passado, como modelo, “Corrente do Mal” foi um dos únicos que salvaram – talvez o único. Em 2016, testemunhamos a melhor obra do gênero atualmente, provando que o horror nas telonas ainda respira.
“A Bruxa”, premiado em Sundance como melhor direção e produzido por um brasileiro, conta a história de uma família inglesa que é obrigada a abandonar um centro colonial por motivos que desconhecemos. Sabemos, na verdade, um pouco, que se trata de  algum meio religioso não cumprido, mas apenas essa informação é mostrada ao espectador.
A família se muda para uma casa isolada, por trás de um enorme território florestal. Os dias escuros predominam por lá, com seu tempo seco e o enorme silêncio. Isso é executado com bastante ênfase. No desenvolvimento percebemos o som pontual de uma trilha sonora bastante sensível quanto a certos ruídos para incomodar o espectador. Quando esses ruídos quase imperceptíveis não aparecem, temos o silêncio absoluto, apenas com o som ambiente de riachos e do vento; em outro caso, a parte sonora aparece para impressionar, com a música nas alturas, em que às vezes funciona por aterrorizar, mas em outros casos aparece de maneira exagerada, como no início, em que a trilha musical estoura e é seguida de interrupções. O grande problema é que isso acontece pelo menos duas vezes num pequeno intervalo de tempo.
O silêncio causa uma enorme claustrofobia, mas isso também é de um mérito ainda maior da fotografia, que utiliza muitos closes para criar um cenário ainda mais limitado aos olhos do espectador, quem se sente inseguro por não ter uma noção espacial minimamente entendível quando os personagens estão em cena – por exemplo, não sabemos o que está atrás ou à frente, se existe algo para causar sustos. Quando não estão na imagem, há planos abertos para ambientar o público onde a história se passa. É bom deixar claro, entretanto, que a aparição de mais de um personagem no mesmo enquadramento é feita por planos conjuntos na maior parte dos casos, muitas das vezes em que a família está junta e rezando acontece isso.
Ainda sobre a fotografia, a iluminação é ótima, principalmente nas cenas noturnas. A proposta do horror é atingida a partir dela, correspondendo com a época passada, no século XVII, além de construir tensão a partir da escuridão sobreposta a pequenos pedaços iluminados. Um bom exemplo para que isso seja traduzido é o momento em que as crianças estão com os bodes dentro de uma espécie de celeiro.
a bruxa
O terror aparece em diversos pontos, sobretudo na iluminação, como foi falado no parágrafo anterior. Além desse aspecto, as cenas de susto são coordenadas com cuidado, e são poucas, pois a tensão parte do suspense casado entre o conteúdo e a direção. As surpresas são deixadas de lado, ainda que apareçam.
O filme possui um roteiro sólido, que através da ótima direção, transforma a parte literal em partes agonizantes. Podem ser classificadas como perturbadoras, quando há discussões entre os membros da família, ou em uma cena em que Caleb, uma das crianças, entrega-se à religiosidade de maneira bizarra.
O conteúdo é bem amarrado e traz reflexões interessantes. A bruxa não é jogada ao público, como o título sugere, isto é, a figura medonha não aparece por muito tempo. Há pensamentos sobre pecado, religiosidade e questões psicológicas, as quais se apoiam muito no final de acordo com o que foi visto ao longo da duração. A peste também é vista através de imagens, e não diálogos, sendo um fator positivo e um dos mais destacados na obra. O desfecho é bom, ainda que fuja um pouco do estilo, é explicado sem necessidades de flashbacks ou de diálogos, mas é de interpretação particular.
O figurino e a direção de arte concedem elegância à obra, por serem ambientalizadores da época em que passam, mas são fortes fatores para mostrar o isolamento daquela família. A elegância aparece também nos diálogos, além de trazer sotaques britânicos bastante fortes, há hipérbatos nas frases ou palavras relacionadas à religião que remetem o classicismo.
Por fim, as atuações estão ótimas, bem coordenadas e bem expressadas. Costumamos entender que o terror não pede representações além das corretas, mas o longa-metragem necessita, pois os planos muito fechados exploram mais as faces do que o posicionamento. O destaque vai para Ralph Ineson, por suas entonações na voz, suas expressões, o posicionamento, ou melhor, o domínio por completo do personagem.
O espectador que for assistir “A Bruxa” não deve esperar uma narrativa recheada de sustos e violência gratuita, ou até mesmo berros a todo instante. Há alguns clichês, obviamente, mas são recursos coadjuvantes, se assim podem ser chamados, são substituídos de forma magistral por um estilo ousado – por causa do gênero – e inovador de uma direção diferenciada de todo o comum dos últimos anos. Não é um terror popular, não esperem todo o medo falado por Stephen King e pelo marketing, esperem uma diferenciação em estereótipos e um coerente trabalho cinematográfico.
★★★★★★★★ – Nota: 8

One thought on “Crítica: A Bruxa

  • 18 de março de 2016 at 15:08
    Permalink

    Desculpa a pergunta, mas vocês crêem q a bruxa é física?..

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *