Crítica: Elena

Por Philippe Torres
Filme: Elena
País:Brasil
Direção: Petra Costa

Para aqueles que enchem a boca para soltar o famoso jargão “não gosto de cinema brasileiro” – mesmo estes não conheçam metade do significa essa imensidade escondida por trás do monopólio Globo Filmes – saibam que é aqui, no Brasil, que há uma das maiores escolas cinematográficas documentais de todo o mundo. E veja bem, não se tratam apenas do tipo expositivo de informações, a capacidade brasileira para tal transforma-os em grandes documentos narrativos, quase ficcionais. É o caso de Elena, de Petra Costa.

A imersão é total, como jamais vi em qualquer filme de ficção. A capacidade narrativa de Petra Costa nos faz mergulhar nas águas de toda sua melancolia, sua angústia profunda. O documentário nos apresentará Elena, que comete suicídio aos 20 anos de idade, quando sua irmã, Petra, tinha apenas 7. Curioso, o documentário não é sobre Elena, mas uma autobiografia dos momentos em que a diretora viveu com a irmã.

Comovente, a diretora nos entrega um primeiro ato que demonstra toda sua proximidade com Elena, toda alegria com as qual vivem. A aptidão de Elena pela arte é visível, com sua irmã brinca, canta, dança, de maneira performática, como se estivesse treinando. Não se deixe enganar, não se trata de uma parte “good vibe” do filme. Petra não se preocupa em emergir, ou tentar, seu espectador na total depressão que ela e sua mãe passaram.

Ponto! A virada do primeiro ato para seu desenvolvimento, o momento em que Elena começa a apresentar sinais depressivos, é comovente. É aniversário de Petra. Construindo seus passos, a diretora nos leva até seu antigo quarto, onde Elena a levara para dar uma notícia: “Você está fazendo sete anos, essa é a pior das idades”. Assim, explica que irá fazer uma viagem, vai para os Estados Unidos buscar o sonho de tornar-se atriz no cinema.

O roteiro parece ter saído dos escritos de Schopenhauer ou Heidegger.  Elena, como diz tais filósofos, vai de encontro com as dores do mundo. As decepções se tornam constantes, a atriz consegue algumas audições, mas não recebe retorno. Logo percebemos que as coisas não estão dando muito certo e uma nova máxima é lançada: “Arte pra mim é tudo. Sem arte prefiro morrer”.

A angustia de Petra e sua mãe cresce a cada dia, a vontade de encontrar-se com Elena em um mundo metafísico domina-as. A fotografia exprime de maneira contundente toda esta imensidão de vazio, toda a necessidade, a procura pelo sentido. Planos que caminham como uma câmera subjetiva, o olhar da documentarista, sempre desfocado, procurando, não encontrando.

A narração é suave, porém depressiva. A trilha sonora acompanha o sentimento, com um grande silêncio na revelação da autópsia. Friamente a imagem revela: “O coração” de Elena “pesa 300 gramas”, detalhes técnicos da medicina que jamais serão capazes de mensurar o peso verdadeiro que carregava, a dor que ali morava. E o coração de Petra? Uma tonelada!

O filme da diretora brasileira é uma das grandes pérolas do cinema brasileiro. Um dos melhores do século. Elena não estará mais aqui, mas se a ausência da arte trouxe a angustia e a morte à sua irmã, a mesma arte, para Petra, veio como libertação, um encontro impessoal. Como diz Schopenhauer: “A arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la”.

★★★★★★★★★★ – Nota: 10/10

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