Crítica: O Lobo do Deserto

Por Fernando Boechat
    Diretor: Naji Abu Nowar

 

    Elenco: Jacir
Eid, Hassan Mutlag, Hussein Salameh, Jack Fox

 

    Países: Jordânia/ Emirados Árabes/ Qatar/ Reino
Unido

 

 

              Em seu primeiro longa-metragem, Naji Abu Nowar, mostra-se bem detalhista na composição das cenas, e ao mesmo tempo ousado, optando por um elenco de atores não profissionais, com exceção de Jack Fox, que interpreta um soldado do exército britânico. O roteiro também é de sua responsabilidade, compartilhada com Bassel Ghandour.
             Estamos no período da Revolta Árabe. No meio da primeira guerra mundial, os britânicos se comprometeram a ajudar os árabes na independência de suas nações frente ao poderio turco que os dominava, em troca os árabes deveriam se aliar aos britânicos contra o seu inimigo em comum.
             É nesse contexto de tensão e desconfiança que o pequeno Theeb aprende as tarefas que deverá desenvolver com eficiência em sua fase adulta, aprender a atirar, pegar água do poço, aonde cortar os animais para matá-los, etc. Por conta de sua pouca idade ele mais observa o irmão mais velho, Hussein, desenvolvendo as atividades, do que de fato as realiza.
            Certo dia os irmãos, que se encontram reunidos com seu clã, recebem a visita de um homem junto a um soldado britânico, solicitando um guia do clã para levá-los a um poço onde este se encontraria com o restante de sua tropa. Apesar de ser uma tarefa ingrata, pelo número de saqueadores e mercenários que dominam a área, resolvem aceitar em nome da tradição de se manter a hospitalidade a forasteiros, e indicam Husseim para tarefa, pois esse tem mais experiência como guia.
            É a partir daí que o pequeno Theeb os segue, desobedecendo a ordem de ficar em casa, iniciando suas aventuras pelo deserto. A fraternidade talvez seja a palavra mais indicada para pensarmos o leitmotiv do personagem principal para superar as adversidades que encontrará em seu caminho.
           O roteiro desenvolve bem a relação dos irmãos, o que se mostrará bem proveitoso para a continuidade da narrativa e para a evolução do protagonista. Apesar de ser um roteiro bem simples, consegue funcionar bem por conta da direção, detalhes como a presença das moscas sempre pousando nos personagens, aumentam a realidade da cena, e deixam implícita, uma vontade da natureza de se aproveitar dos corpos em decomposição.
           O perigo é anunciado não por trilhas sonoras enfáticas, mas por pequenos detalhes visuais, como cápsulas vazias de munição na areia do deserto ou um bando de urubus sobrevoando o céu procurando uma carcaça.
           A afirmação de que “o homem é o lobo do homem” consegue sintetizar bem o clima de desconfiança pertencente à filosofia política de Hobbes, assim como a do filme, que tem para Theeb e seu clã o lema do falecido patriarca: “o forte devora o fraco”. Em um mundo de lobos há de se tornar lobo também, e dos fortes, para sobreviver.
          O filme só peca por se tornar um tanto previsível no final, mas não chega a ser tão comprometedor, porque é o tipo de filme que funciona com uma história simples, algo mais ou menos como ocorre em O Encurralado de Spielberg, um filme de roteiro extremamente simples, mas que consegue prender o espectador.
          Essa é apenas a segunda vez que a Jordânia envia um filme para consideração do Oscar e é também sua primeira indicação na categoria, com um diretor estreante em longa-metragem, mas que consegue fazer um filme esteticamente belo e bem trabalhado. Ganhar seria muito difícil, seus adversários são superiores, e a própria nacionalidade do filme pode angariar algum preconceito dentro da Academia.

 

Nota: 8,0

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