Crítica: O Abraço da Serpente

Por Fernando Boechat

Direção: Ciro Guerra

Elenco: Jan Bijvoet, Brionne Davis, Nilbio Torres, Antonio Bolivar

País: Colômbia, Venezuela e Argentina

Situado tanto na Amazônia venezuelana quanto na brasileira, O Abraço da Serpente tem por base os relatos de viagem contidos nos diários do etnólogo e explorador alemão, Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), que também foi um dos pioneiros na fotografia etnográfica, e do etnobotânico estadunidense Richard Evans Schultes, que tinha como uma de suas especializações o estudo de plantas alucinógenas.

O cuidado em seguir a obra de ambos os cientistas nos dá uma riqueza sem igual. A cinematografia em preto e branco parece se inspirar nas fotografias de Theodor e ajudam a remontar histórica e etnograficamente a realidade indígena amazônica e seu contato com os exploradores brancos.

É presente, certa psicodelia no filme, da qual podemos associar à influência do tema de estudo de Richard e também, e principalmente, da própria história de violência e colonização sofrida por esses povos, seja por conta dos senhores da borracha que escravizavam os índios ou dos padres missionários que torturavam física e psicologicamente as crianças indígenas, destruindo o vínculo com suas origens e deixando marcas traumáticas em suas vidas.

Uma jornada em busca de (re)conhecimento é o que motiva a vinda dos pesquisadores, primeiro Theodor (no filme seu sobrenome é modificado para Von Martius), e cerca de quarenta anos mais tarde, Richard, inspirado pelos estudos de seu antecessor, ambos financiados por universidades de prestígio para realização de suas descobertas que envolvem o estudo da planta Yakruna, sagrada para os nativos.

Vale indicar que Von Martius é o sobrenome de outro pesquisador alemão,Carl Friedrich Philipp von Martius, antropólogo e botânico, que fez seus principais estudos voltados ao conhecimento de plantas e tribos amazônicas, o que acrescenta mais uma referência antropológica de influência do diretor.

Ambos cruzam a vida do xamã Karamakate, que serve como guia principal para o encontro da planta, contando também com Manduka, índio de uma tribo rival em relação ao primeiro, que acompanha Theodor com um grande senso de lealdade e gratidão.

O xamã não está disposto a entregar “ouro a bandido”. E para se conseguir algo dele terão que se mostrar merecedores, tampouco se impressiona com o conhecimento adquirido pelos pesquisadores relativo às tribos que vivem no lugar e das plantas da região, se mostrando o personagem mais sábio e mais
importante da narrativa.

Frequentemente nos é apresentada a tensão entre Karamakate e o mundo a sua volta. Sendo o último membro de uma tribo de guerreiros que não se renderam à escravidão nos seringais nem às investidas de padres missionários, mantém para si o compromisso de não perder o vínculo com suas raízes e seus ancestrais.

Seu encontro com outros índios e homens brancos que por vezes aparecem em seu caminho é sempre iniciada com um distanciamento, estando sempre disposto a seguir os ensinamentos da natureza, enxerga com tristeza a mudança de hábito de outros índios que por vezes podem ser encontrados embriagados por diversão pelo uso de uma planta que só deveria ser usada para fins estritamente espirituais, ou vestidos com roupas de brancos e imitando seus hábitos.

O diretor mostra tremendo respeito pelos povos indígenas, o que se nota logo de início ao se deparar com o filme quase todo falado em língua nativa- salvo pequenos momentos em que são encontrados padres missionários, os quais proíbem o uso dessa língua de “Satã”. Ou seja, nos pequenos momentos em que são usadas outras línguas, são feitas críticas ao papel do colonizador, que vieram alienar culturalmente aqueles povos.

A língua é respeitada, assim como a visão de mundo, centrada no personagem do xamã, que apesar de sua sabedoria e imponência, também tem falhas e dramas. E a direção não cai no erro de criar uma imagem romantizada do personagem, mostrando-se bem realista, mesmo em situações aparentemente fantásticas, que na verdade são fruto do choque que certas imagens de maldades e perversões bem reais podem nos causar.

A psicodelia mencionada pode aparecer tanto nessas cenas em que a dominação do colonizador mostra a violência crua contra o índio- e pouco mostrada no cinema- o que acaba sendo um contraste forte com as imagens que nos bombardeiam de índios vilões ou apresentados como selvagens em filmes de faroeste; ou no sincretismo bizarro também proporcionado pela mistura cultural do índio com a fé católica imposta à força. Também pode ser percebida em momentos mais positivos proporcionadas por alguma experiência transcendental.

Tudo reunido nos dá uma experiência artística e antropológica ao mesmo tempo. As atuações são tão boas que, unidas com todo trabalho de se manter a língua nativa e o cuidado na representação histórico-cultural, parece que estamos assistindo a um documentário, tudo isso embalado por uma trilha sonora ótima de canções indígenas e uma fotografia louvável, se mostrando um concorrente muito digno ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

 Nota: ★★★★★★★★★☆. Nota 9

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