Crítica: O Inquilino

Por Leonardo Carvalho
Reino Unido – 1927
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ivor Novello, Marie Ault, Arthur Chesney

Baseado em um livro homônimo, que teve Jack, o estripador como uma inspiração, “O Inquilino” é o primeiro filme em que Alfred Hitchcock conseguiu imprimir com segurança o seu estilo. Esse longa-metragem, na verdade, foi o primeiro suspense do diretor inglês, uma referência para toda a sua carreira posterior.

A introdução é fraca, mas
não quebra com as expectativas do que virá no desenvolvimento, visto que o
espectador queira descobrir quem é esse assassino e se ele é o inquilino. A
abertura tem pontos negativos por não andar com a história, ainda que ela tenha
muitos cortes e uma trilha musical bastante intensa. Não só isso, mas é
repetido algumas vezes – redundância – que o assassino matou a sua sétima
vítima, e essa vítima é loura e foi atacada numa terça-feira.
Mesmo assim, logo depois
dessa informação ser repetida, Hitchcock consegue expor boas sacadas de humor,
com um grupo de modelos dizendo que largarão a água oxigenada para não deixarem
o cabelo loiro. Antes disso, durante a mesma fraca introdução, outros momentos
engraçados aparecem com transeuntes colocando seus casacos no rosto, brincando
de que são o assassino com a finalidade de assustar as pessoas mais próximas.
Essa foi uma grande jogada
do diretor para entreter o espectador. Indo além, é necessário destacar o ótimo
trabalho de caracterização do assassino, que consegue ser coerente com o clima
londrino e ainda possuir uma vestimenta macabra: largo casaco escuro, chapéu de
cor escura e um cachecol. Sem dúvidas, esse modelo é muito inspirado nos filmes
expressionistas. Não só isso, mas também a fotografia com seus jogos de luz e
sombra e sua iluminação escura em takes
noturnos são outros exemplos de referências ao movimento alemão.
Em consequência do que foi
falado anteriormente, as cenas noturnas conseguem ser muito tensas, mérito
também da trilha musical sombria e da direção que consegue conduzir os cortes
certos para causar suspense e enquadramentos que captam o horror. Ainda sobre o
vilão, as vestimentas são fundamentais na sua criação, mas Hitchcock vai além,
e joga uma simpatia no personagem, fazendo dele um antagonista perfeito que
terá dois rumos: se for descoberto como o verdadeiro assassino, será odiado
pelo espectador e visto como um cínico, caso ao contrário, se não for o
assassino, será enxergado um pesar de ter sido acusado, ainda mais que há um
romance entre ele e Daisy, em que o público ganhou um afeto entre ambos.
Explicitamente é observado o estilo hitchcockiano, importante em obras
posteriores.
Fazendo uma ponte com isso, o
final é muito bom e é o ápice em qualidade. Tudo indicava que o inquilino era o
assassino, até pelo título já chamar atenção e pelo o que foi falado acima, mas
descobrimos que o assassino é outro, e isso é o principal motivador do clímax.
O espectador sabe que ele não é o psicopata, mas as pessoas que vão atrás dele após
verem que está algemado, não sabem, e esse fator faz com que a cena ganhe
emoção e o público vibre com ela, fique na torcida pelo inocente, para não ser
punido. Esse aspecto é chamado de ironia dramática, em que Hitchcock usaria
novamente em diversos filmes, inclusive em “Psicose”.

 

Com base em tudo o que foi
dito anteriormente, podemos concluir que “O Inquilino” é um excelente filme,
ainda que peque no seu começo, e uma das obras mais importantes de Alfred
Hitchcock, já que utilizou diversos elementos do longa-metragem analisado aqui
em seus filmes ao longo da carreira. O estilo do mestre do suspense foi lançado
e logo em seu primeiro experimento, dava-se uma previsão de que um grande
cineasta do gênero estava para surgir.
★★★★★★★★★★ – Nota: 10

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