Crítica: Goodnight Mommy

Leonardo CarvalhoÁustria – 2015
Direção: Veronika Franz, Severin Fiala.
Elenco: Susanne Wuest, Lukas Schwarz, Elias Schwarz.

Inspirado em “Jogos Perigosos” de Michael Haneke devido ao tema voltado às torturas, “Boa Noite, Mamãe” é o grande filme austríaco de 2015 e é merecedor de uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro. Embora tenha pequeníssimos problemas, tecnicamente é impecável.Os irmãos gêmeos são os protagonistas da história ao lado de uma mãe misteriosa que utiliza ataduras em seu rosto, todos vivendo em uma nova casa isolada dos barulhos de Viena. As ataduras são consequências de um recém-acidente da moça. O grande problema parte dos meninos, que começam a se questionar sobre a identidade da mulher e se aquela é a verdadeira mãe devido a certas atitudes.

É curioso observar que existem diversas maneiras de pensar o filme enquanto o espectador tenta organizar as pistas para a descoberta da verdadeira identidade da moça. Há, na verdade, algumas pistas que são jogadas para se descobrir a conclusão da obra: uma delas é Elias, um dos irmãos, chamar por Lukas, o outro irmão, quase dez vezes durante todo o filme, principalmente no começo; a outra pode ser vista através de cenas voltadas à mãe, como um álbum de fotografia, por exemplo.

A busca pela verdade dos meninos nos faz querer saber, antes de tudo, que tipo de feição existe por trás daquelas ataduras, trocadas diariamente. Pequenas partes do seu rosto são mostradas, isso aparece quando os meninos pesquisam a mãe “um pouco famosa” em um site de buscas, ou quando a mulher renova o curativo em frente ao espelho. Esta última é, de fato, uma referência ao cinema norte-americano na construção de um personagem que ainda vai ser revelado com o intuito de causar mistério.

Da metade do filme em diante, acontece uma inversão, uma transição do que estava sendo mostrado: sai o domínio da mãe rígida e entra as diabólicas crianças. A mãe passa a ser a vítima da história, pois é torturada a partir desse tempo até o final pelos irmãos gêmeos, que fazem isso para que ela possa revelar a verdadeira identidade. Isso lembra “Jogos Perigosos” de Haneke, mas neste há a intenção doentia da tortura, diferente em”Boa Noite, Mamãe”, em que é explicado no final os porquês daquilo tudo estar acontecendo. Não só a Haneke, mas podemos lembrar também de obras como “Medo”, dessa vez não pela tortura, mas pelo final revelador, que acaba se mostrando um pouco previsível – pelas pistas – e ligeiramente estereotipado – já foi utilizado em outros longa-metragens. É bom deixar claro que o final não estraga o filme, muito pelo ao contrário, chega a ser chocante ainda que seja previsível.

Sobre um outro pequeno problema, raríssimos na composição, encontramos o encaixe de duas figuras para a criação de mais suspense. Eles aparecem como membros da Cruz Vermelha austríaca procurando por doações, quando são atendidos pelos meninos enquanto a moça está amarrada no quarto do andar de cima do duplex. A criação da tensão foi muito bem executada, mas um deslize acontece de forma forçada pela razão de esses personagens de impulso dramático entrarem na casa ainda que não saibam se há alguém por lá. É óbvio que existem indivíduos intrusos, contudo, ficou evidente que não houve outra escolha. Isso, porém, acaba sendo corrigido pela escolha de características caricatas deles, que não só justifica essa “intrusão”, mas também um alívio para que o espectador possa pensar nas teorias formadas a respeito do segredo e para que haja um tempo de relaxamento.

Em outros fatores técnico, deve-se enfatizar a excelente escolha da ausência de trilha musical, que deixou o filme mais tenso devido aos ruídos que aproximam o espectador daquele ambiente. A fotografia é a parte mais genial de toda a composição. Esta se apresenta com nítidas posições de câmera que beneficiam os atores em suas expressões: o plano fechado nos ombros da mãe enquanto está com as ataduras, refletindo numa imagem assustadora; mais para o final, o Diabo transparente nos olhares de Lukas e Elias. Além disso, a movimentação lenta e precisa serve para que o espectador tenha um limite do local onde se passa toda a história. Numa cena, como modelo, um plano subjetivo é usado para mostrar um dos meninos entrando no quarto com a mãe dormindo. A câmera vai virando vagarosamente da porta até subir ao rosto da mãe, causando bastante suspense. Há muito o que se destacar desse aspecto, como também a utilização do plongeé e contraplongeé para mostrar a superioridade da mãe no começo do desenvolvimento e a superioridade dos meninos no final do desenvolvimento. A iluminação também precisa ser falada, utilizando um jogo de luz e sombra fantástico que lembra muitas vezes o Expressionismo alemão, sendo um jogo carregado de terror.

“Boa Noite, Mamãe” é dirigido de forma coerente de acordo com as técnicas cinematográficas. Merece prêmios por ser um suspense de primeira, o qual se aproxima de ser uma obra-prima. Sombrio e misterioso com um final que poderia ser mais surpreendente, mas não perde seu charme gótico e afia seu estilo no cinema europeu.

Nota: 9

One thought on “Crítica: Goodnight Mommy

  • 18 de maio de 2016 at 18:11
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    Eu nunca havia pensado por esse ângulo viu… É mesmo interessante esse ponto de vista. Obrigado por compartilhar esse conteúdo de valor

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