Crítica: A Garota Dinamarquesa

Por Fernando Boechat

Direção:Tom Hooper
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Tusse Silberg, Pip Torrens
País: EUA , Reino Unido , Alemanha

 

 

Tom Hooper já está acostumado a investir seus
esforços em filmes de época, sendo os mais recentes O Discurso do Rei e Os
Miseráveis, esse primeiro dotando-lhe de prestígio com 12 nomeações ao Oscar e
conseguindo 4 prêmios (melhor filme, melhor ator, melhor roteiro original e
melhor diretor).

Em Os Miseráveis ele está dirigindo um romance consagrado de Victor Hugo e em O
Discurso do Rei, uma biografia. Em A Garota Dinamarquesa ele unirá os dois
elementos, por um lado se inspirará em um romance homônimo de David Ebershoff,
por outro, estará de certa forma tratando de um caso biográfico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Digo “de certa forma” porque não se trata de uma biografia de fato, e sim, de uma
semibiografia, já que o próprio David Ebershoff deixa bem claro na introdução
de seu livro que este é povoado de elementos ficcionais e não deve ser usado
como fonte histórica nem dos fatos nem da vida íntima dos personagens.

 

Apesar do diretor gostar da temática política, como fica aparente em sua filmografia,
sua pegada é mais romanceada, falta potencial crítico para alcançar a grandeza
dos temas que ele propõe. Seria algo como se alguém resolvesse fazer um filme
sobre o envolvimento de Foucault com os presídios- toda luta que desenvolveu no
sentido de dar voz aos presos e deslocar, mesmo que por um breve momento o
centro de gravidade do discurso- e não entrasse nem nos conceitos do autor e
nem nas consequências políticas do ato.

 

É necessária certa ousadia para tratar de questões de identidade de gênero, isso
é fato, principalmente sabendo-se de antemão do conservadorismo da grande massa
de telespectadores, assim como o da Academia do Oscar. Mas me pergunto até onde
vai essa ousadia, visto que o diretor já conseguiu seu prestígio nesse meio
conservador.

 

Posso estar pegando um tanto pesado, é meu lado de cientista social falando mais
alto.  O filme naturalmente deve ter
algumas qualidades, e certamente as têm. Sua fotografia externa, mostrando a
paisagem, é linda, nos faz entender o porquê de ter incentivado tanto como inspiração
para Einar em seu estilo de pintura.

 

A feição andrógina de Eddie Redmayne (concorrente ao Oscar de melhor ator)
contribui para imersão em seu conflito interno de identidade, oscilando no
início entre Einar e Lili, até assumir por completo sua identidade feminina. É
de se destacar também, a meu ver, mais a elaboração das cenas em sua relação
com o próprio corpo, seu ensaio de gestos, seu modo de sentir o tecido das
roupas femininas e o prazer que isso lhe traz, do que propriamente a atuação.

 

Essa corre o risco de perder um pouco da naturalidade na mesma medida em que são
acentuados esses recursos literários de descrição que estão bem presentes no
livro. Curiosamente então um ocorre em detrimento do outro. Esse problema não
aparecerá ao nos depararmos com a personagem de Gerda (vivida por Alicia
Vikander, e também concorrente ao Oscar, na categoria melhor de atriz
coadjuvante) que esbanja naturalidade durante as cenas.

 

A trama cai no apelo psicologizante que o conflito de gênero acarreta em
Einar/Lili e também no modo como isso altera a relação com sua esposa Gerda.
Essa, na verdade, lida melhor que ele/ela com a questão, mostrando um amor
incomum, capaz de quebrar quaisquer barreiras.

 

Os aspectos sociais são mostrados muito superficialmente e parecem estar lá só
para constar que não foram deixados de lado. É mais fácil encontrar uma
preocupação com o figurino e o cenário, que ajudam a umentar o realismo de um
filme de época, do que com aspectos mais profundos.

 

É certo que nem todos alcançarão a excelência antropológica de diretores como
Jean Rouch, Agnès Varda e Věra Chytilová. Mas certos temas merecem ao menos
esse esforço. Fora isso, devo dizer que a história singular do(a) artista
retratado(a) merece ser conhecida e assistida, assim como vale a pena conferir
a atuação muito boa de Alicia Vikander.

 

 

★★★★★★½☆☆☆ – Nota: 6,5

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *