Crítica: O Quarto de Jack

Por Philippe Torres
Crítica: O Quarto de Jack
EUA; Irlanda – 2016
Direção: Lenny Abrahamson
Elenco: Brie Larson; Jacob Tremblay; Joan Allen; Amanda Brugel; William H. Macy; Sean Bridgers.

Na corrida pelo Oscar, O Quarto de Jack é o Whiplash da vez. O filme independente que todos vão amar e que não apela para esta afeição de seu público, que não se espera vitórias, mas que pode surpreender. É um filme realmente bom em seus aspectos técnicos, narrativos e de entretenimento garantido. Claro, não se trata de um filme goodvibe, mas sua construção é afetiva apesar de não utilizar de elementos melodramáticos, longe disso.

O diretor irlandês Lenny Abrahamson fez certo sucesso em 2014 passado com seu filme Frank estrelado por Michael Fassbender, contudo não conseguiu uma vaga na premiação da academia. O Quarto de Jack, por sua vez, conseguiu 4 indicações importantes: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Atriz e Diretor.

O filme conta a estória de Jack (Jacob Tremblay), um menino que acabara de fazer cinco anos criado por sua mãe, Joy (Brie Larson). O mundo em que vivem, contudo, não é nada convencional. Os dois vivem em um quarto onde são mantidos em cativeiro por sete anos – o garoto nasceu no quarto. Aquele ambiente é extremamente claustrofóbico para Joy, uma prisão que deseja a todo custo sair, contudo, a mulher tenta a todo custo transforma-lo em um mundo agradável para seu filho. Para ele, que não conhece o mundo de fora, tudo se tornou uma grande fantasia, seu mundo é o quarto, do lado de fora o universo, na tv coisas de mentira. Enfim, um universo fantasioso é criado pela mãe para que o menino sinta-se bem. Toda noite um homem vai ao quarto, onde abusa de Joy, enquanto isso Jack dorme no armário, como em um conto de fadas imagina que o homem é uma boa pessoa que os alimenta. À medida que Jack amadurece, a mãe tenta contar a verdade para este e elaborar um plano de fuga. Os conflitos, então, permearão a ideia do conhecimento de um novo mundo, da liberdade, novos prazeres que, porém, o menino não sabe se os quer.

A primeira metade do filme nos apresenta um mundo extremamente claustrofóbico. A noção de espaço do espectador é constantemente frustrada por planos fechados, close-up no rosto dos personagens que reduzem o ambiente. A fotografia é então complementada por cores desaturadas , sem vida, que transformam o quarto em um ambiente de horror psicológico para a mãe, ao tempo que cria uma imagem corriqueira, cotidiana para o menino. Uma claraboia tem uma importância simbólica importante para os personagens, mais uma vez, de maneira diferente. Se pra um significa um mundo a ser descoberto, mágico, um universo diferente e inabitável, para a mãe significa sua liberdade, e a câmera a todo instante não nos deixa esquecer desse elemento. Os dois personagens, que vivem em um mesmo mundo, contudo, caminham de maneira paralela como em uma montagem de Efeito Rashomon, mas em um mesmo ambiente, ao mesmo instante. Os elementos técnicos proporcionam diferentes significados para cada um deles.

Apesar de tratar de um ambiente extremamente claustrofóbico e incomodo, o diretor não foca na exploração do horror da situação. O filme tem o objetivo narrativo de nos apresentar o mundo através dos olhos, principalmente, de Jack. As constantes câmeras subjetivas servem de prova para tal afirmação, curiosa, mas segura no primeiro ato e mesmo que curiosa, assustada e tímida no segundo, se escondendo por trás das coisas e da mãe. Construído dessa forma, o filme se estabelece em apenas dois atos. O quarto e fora dele. A prisão e a liberdade.

O segundo ato apresenta a liberdade, mas não de maneira estereotipada, moralizada. Ao menino esta nunca foi apresentada, não a conhece, não sabe se a quer. A mãe, agora, os conflitos e relações com o mundo exterior a aprisiona, a liberdade se torna uma mentira. Para apresentar esse mundo, os closes ainda aparecem, mas câmera abre mais constantemente. Se antes a fotografia era apagada, agora luzes estouradas aparecem e oferecem um mundo de curiosidades, mistérios e indefinições.

Diferente em sua composição narrativa, O Quarto de Jack apresenta uma história envolvente que, porém, é quase impecável em termos técnicos. A estranheza é garantida, da mesma forma que Jack descobre o mundo, descobrimos um novo pedaço junto a ele.

 

 ★★★★★★★★½☆ – Nota: 8,5

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