Crítica: O Regresso

Por Fernando Boechat        Diretor: Alejandro González
Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom
Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Lukas Haas, Brendan Fletcher
País:
Estados Unidos

 

Há muita expectativa em relação a esse filme, muitos esperam que Leonardo DiCaprio consiga o Oscar, talvez até consiga, o Globo de Ouro já está garantido (melhor ator para DiCaprio, melhor filme e melhor diretor).  Existe essa prática compensatória dentro da Academia de conceder premiações a um ator que chegou próximo a conseguir o prêmio por vários anos, mas nunca alcançou, DiCaprio com certeza se enquadra nessa categoria.

 

 

O filme parte de uma premissa bem simples, Hugh Glass (DiCaprio) é um caçador, de um grupo de mercadores de pele, que serve também como guia, principalmente após o ataque violento que sofrem na cena inicial em plano-sequência, em que boa parte de seu grupo é exterminado por índios nativos, e após isso partem fugidos em seu pequeno barco ao longo do rio Missouri.

 

O caminho é desconhecido da equipe, apenas Hugh Glass o conhece bem, sendo encarregado pelo capitão da equipe a ser o responsável pelo trajeto por àquelas terras, dominadas por indígenas, exploradores franceses e animais selvagens, isso sem falar do clima impiedoso chegando muitos graus abaixo de zero.

 

O papel de destaque dado a Glass incomoda bastante o ambicioso e inescrupuloso John Fitzgerald (Tom Hardy), que se mostrava mais preocupado em ter perdido as peles deixadas para trás após o ataque indígena, do que pela vida de inúmeros de seus colegas.

 

Em certo momento Glass é atacado por um enorme urso, que o castiga impiedosamente, a partir desse momento é decidido pelo capitão da missão- após algumas discussões acaloradas- que alguns homens fiquem com o moribundo e que caso esse venha a morrer, que ofereçam um enterro digno, sendo bem recompensados aqueles que o fizerem.

 

John Fitzgerald, querendo a recompensa, se mostrará mais humano, mesmo que por uma motivação puramente financeira, e convence o capitão a que permita que ele fique com Glass, seu filho e mais um adolescente para cuidarem dele e o levarem em segurança, mesmo que seja o cadáver em segurança (para não abusar dos spoilers ficarei por aqui nessa parte).

 

A justificativa de Glass conhecer bem o terreno é o fato de ele ter vivido junto a membros da tribo Pawnee, dentro do território que ele serve de guia, do qual teve uma mulher e um filho mestiço que o ajuda na missão. Sua vida na aldeia é um tabu pouco revelado tanto pelo personagem quanto pelas cenas.

 

Há de se fazer algumas críticas aqui ao que parecem ser elementos jogados de uma forma um tanto apressadas. O vínculo entre Glass e seu filho mestiço é forçado, o personagem do menino é muito pouco desenvolvido, para não dizer apagado, e a figura de pai rígido e protetor acaba não convencendo muito. Faltou uma abordagem mais longa identificando seus laços, sua história em comum e os desafios que tiveram que passar para que isso se justificasse.

 

Sobre sua mulher o caso é ainda mais grave. Essa só vem em lembranças ou como aparição fantasmagórica, onde seu semblante parece lhe reacender as forças para continuar sobrevivendo naquele ambiente hostil. Esse recurso narrativo parece um tanto ultrapassado, lembra muito o de Coração Valente (1995), só que esse último foi muito convincente em seu uso, criando toda uma história e atmosfera que nos faziam acreditar sem dúvidas no envolvimento amoroso dos personagens e na importância daquela mulher para William Wallace.

 

E esses personagens (sua mulher e filho) são – apesar de apagados no roteiro – os elementos que ligam o protagonista a um mundo diferente daquele conhecido por seus colegas, não só pelo conhecimento adquirido em sobrevivência, mas especialmente uma nova visão de mundo que se abre e o coloca em uma posição de deslocamento, sabendo de toda violência cometida aos nativos e conseguindo se colocar em seu lugar.

 

É nesse sentido que Glass é um personagem atormentado, teve sua mulher assassinada pelos homens brancos e teve que criar seu filho mestiço sozinho, sendo ele mesmo um homem branco explorador e tendo que conviver com tantos outros da mesma espécie. Isso constrói um personagem interessante e dentro da narrativa é recluso e antipático na visão de seus colegas.

 

Obviamente há muito mais o que ser dito mas, para não esgotar o conteúdo do filme, irei finalizar com algumas breves observações formais. Se, na minha escrita, as passagens de transição são brutas e pouco justificáveis, é também para expressar formalmente (na estrutura do próprio texto) a precariedade que eu acredito existir no roteiro.

 

O filme ganha pontos em sua cinematografia, a câmera filmando de baixo para cima aumenta a imponência da floresta e mostra o quão frágil é a vida dos seres humanos se comparados com a força da natureza. A fotografia aliada ao som dá um caráter mais materialista, aumentando a brutalidade e a gravidade da cena, o que é um recurso inteligente que favorece as cenas de violência; o roteiro tem seus furos, principalmente no início do filme, como se não tivesse paciência de se desenvolver melhor e corresse logo para as cenas de mais ação.

 

O filme não me cativou muito. Eu gostei, mas não chamou muito minha atenção. Sou mais chegado a filmes existencialistas franceses e da nouvelle vague tcheca, o que me dá uma certa alergia natural aos concorrentes do Oscar. Se digo isso, é como uma autocrítica que deve ser levada em conta pelo leitor ao se deparar com a minha avaliação e o juízo que faço do filme. Dito isso, creio ser um filme bom para o Oscar e um forte concorrente.

★★★★★★★☆☆☆ – Nota: 7/10

2 comentários em “Crítica: O Regresso

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