Crítica: O Filho de Saul

Por Philippe Torres
O Filho de Saul
Hungria– 2016
Direção: Lázló Nemes
Elenco: Géza Röhrig; Amitai Kedar; Attila Fritz; Christian Harting; Levente Molnár.

O Filho de Saul

OFilhodeSaul-1O Filho de Saul, de Lázló Nemes, é desde o inicio das campanhas para o Oscar, o favorito a sair vitorioso na categoria de melhor filme estrangeiro – em especial depois do corte de “Que Horas Ela Volta” da premiação que, apesar de não ser favorito, correria por fora – e daqui em diante não parece que as coisas irão mudar.

O filme conta a história de Saul Ausländer, membro de um grupo de prisioneiros judeus isolados do resto do acampamento concentrador, Sonderkommando, onde são forçados a trabalhar para os nazistas na máquina de extermínio de seu próprio povo. Enquanto trabalhava em uma das câmaras de gás, em meio aos cadáveres no chão, Saul descobre um menino que havia sobrevivido que, contudo, foi logo observado por um médico que o sufocara. Saul, então, toma o menino como seu filho. Em meio a iminente rebelião da Sonderkommando e escondido dos oficiais nazistas, Saul decide salvar o corpo da criança, encontrar um rabino e dar ao menino um enterro apropriado.

Com uma temática que, apesar de pertinente, se encontra extremamente desgastada no Cinema, o holocausto judeu, O Filho de Saul traz uma proposta estética vendida como inovadora que funciona bem, mas não apresenta nada diferente do que já foi feito. O diretor Lázló Nemes opta por uma fotografia de razão de aspecto reduzida, quadrada, ampliando a claustrofobia do ambiente a qual o personagem vive. É pertinente a escolha do diretor, os locais fechados parecem mais fechados, os abertos comprimidos, enclausurados pelos limites da câmera. Contudo, o que o longa traz de diferente é sua composição feita com todos os quadros em planos fechados. Se a razão de aspecto já ampliava a claustrofobia, os planos fechados ocultam e estimulam a criatividade e curiosidade do espectador. Ouvimos os gritos, o desastre, a tragédia, parecemos vê-la, mas na maioria das vezes não.  No princípio o inimigo não era mostrado justamente por esses planos que acompanham o personagem principal. A ocultação destes personagens cria maior temeridade e ameaça a estes, além de diferenciar o filme dos demais que possuem a mesma temática – o holocausto é quase um subgênero nos filmes de guerra – onde há a necessidade de mostrar os nazistas como os seres horríveis que são, muitas vezes caricaturando-os. Essa ocultação, contudo, não demora muito para ser revelada e a ameaça perde parte da sua força. Não vou tirar pontos do filme por causa de suas escolhas de marketing, apenas pelo que apresentou (apresentar como inovadora suas escolhas), mas é inevitável a comparação deste com o incrível longa-metragem russo de Elem Klimov – Vá e Veja – que também usa a razão de aspecto reduzida e os planos fechados – porém mesclados a planos abertos que introduzem um mundo devastado que o personagem encontrava. O Filho de Saul não precisa dos planos abertos, uma vez que o mundo em que se encontra é extremamente contraído, o campo de concentração – para criar ambientação.

É inevitável que os planos fechados durante o filme por completo limitem os cortes. Dessa forma, o filme apresenta uma montagem repleta de planos sequências que seguem o personagem principal em sua grande – porém pequena em termos de espaço – jornada. Essa limitação de modo algum é uma falha, apenas uma constatação do domínio do diretor em suas escolhas.

A sonoplastia tem papel fundamental na trama. Uma vez que razão de aspecto e a composição fotográfica limitam a imagem e escondem mais do que mostram, o que está fora da câmera ganha muita força pela presença do som, elemento que da força ao filme, que faz acharmos que vimos todo aquele desastre, mesmo que em poucos momentos tenha sido mostrado por completo.

É incontestável, para muitos, a vitória de O Filho de Saul no Oscar desse ano. Se é inovador, não vem ao caso. Importa que o filme tem uma qualidade muito particular que o faz merecer ao menos sua indicação e sua audiência. Recomendado.

★★★★★★★★☆☆ – Nota: 8/10

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