Crítica: Creed – Nascido para Lutar

Por Fernando Boechat
Diretor: Ryan Coogler
Elenco: Michael
B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad
País: Estados
Unidos

Estava receoso com o filme, não esperava nada dele, imaginei que seria como qualquer outro da franquia “Rocky”, do qual não sou um fã. Por sorte eu estava enganado, o roteiro sim, é bem previsível, mas é difícil encontrar um blockbuster que não o seja. Se o roteiro não traz grandes surpresas trata-se de procurar fora dele o que há de especial.

 

Em um plano de grande profundidade vemos as paredes que encarceram nosso protagonista Adonis (futuro Creed), interpretado por Michael B Jordan. Trata-se de um centro de detenção para menores infratores, local que o órfão de pai e mãe passa a maior parte de sua infância desde a morte da mãe, já que o pai (Apollo Creed) ele nunca chegou a conhecer.

 

Nesse ambiente hostil o menino vive se metendo em brigas e a violência é seu meio de sobreviver e defender sua honra. Seu futuro não parece nada promissor, ele é filho de Apollo por uma relação extraconjugal que só viria a ser de conhecimento público no futuro. Mas certo dia sua sorte muda, a viúva de Apollo, Mary Anne (Phylicia Rashad), em um gesto de amor, adota o menino.

 

Adonis passa da marginalidade para uma vida rica em uma mansão, com uma educação de ponta e tudo que esse modo de vida proporciona. Tais facilidades teriam tudo para “amolecer” o caráter do protagonista. Não que eu acredite que a riqueza corrompa o homem, mas, sem dúvida, esse tipo de facilidade por muito tempo deixa alguém ‘mal acostumado”.

 

Só que se trata de um rapaz que se percebe na juventude em uma vida infeliz, trabalhando em uma ótima firma de instituição financeira, onde se destaca, mas que não encontra ali motivação ou verdade para continuar, daí larga tudo, emprego, casa, e parte rumo a sua verdade, no ringue, no boxe.

 

Não é o tipo de personagem que nos cative por sua infância difícil ou por alguma tragédia específica que lhe tenha ocorrido, mas sim, alguém que por uma força de vontade e desprendimento louváveis já se mostra vitorioso em cada ato, independente dos resultados que venha a obter.

 

Sua sanha por lutar se explica tanto pela realidade dura dos centros de detenção como, principalmente, por ser um meio de se aproximar de seu pai, que era uma lenda, e já havia morrido quando ele nasceu. Assim, lutar seria um meio de suprir uma carência afetiva e de mostrar para si que havia o sangue de seu pai em suas veias e que ele mesmo também era um campeão.

 

O filme lembra muito Rocky (1976) quanto ao roteiro, suas referências internas ao primeiro filme também não poderiam deixar de estar presentes. O protagonista (Adonis), contudo, tem uma realidade distinta, viveu os dois mundos, o de sua condição marginal na infância e uma vida rica na Califórnia, apesar de nunca estando de fato integrado à condição que vivia.

 

Essa particularidade parece ter feito bem a seu caráter e sua capacidade de enfrentar os problemas e lidar com os outros de forma mais madura, que se reflete tanto na sua relação com seu par romântico, Bianca (Tessa Thompson), quanto com Rocky, que passa a ser uma figura paternal para o rapaz.

 

O próprio Rocky se apresenta muito bem no filme. Não encontramos aquele Stallone sobrecarregado de anabolizantes, mas um corpo já abatido e cansado, como seria de esperar de um senhor de 69 anos. Seu personagem convence mais que nos outros filmes. Temos a solidão de alguém que perdeu todos aqueles que amava e  importaram em sua vida, mostrada de forma sutil e sem excessos de drama.

 

Stallone conseguiu o Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante por conta desse filme. Apesar da boa atuação, dentro de seus limites, me parece se tratar de um grande exagero, típico da academia, ao querer homenagear um grande campeão de Framboesa de Ouro na indicação e premiação como pior ator.

 

Não quero desmerecer seu trabalho, que julgo bom no filme em questão, mais realista e menos canastrão que a maioria de seus filmes, sem sombra de dúvida. Mas seu personagem é melhor pela criação (mérito do próprio Stallone ao ter participado na parte de criação de personagens do roteiro) do que pela atuação, sendo a Tessa Thompson superior nesse quesito, assim como Michael B Jordan.

 

 

 

Vale acrescentar, para que não fiquem com uma impressão ruim, que o filme me trouxe aquela animação infantil de quando eu assistia os filmes do Van Damme e similares, só que com um trabalho estético diferenciado, coisas simples como cartelas que se apresentam ao lado de alguns lutadores que nos passam de imediato o seu rank na categoria, nome, etc., como se estivessem em uma apresentação televisiva ou estivéssemos vendo o avatar de algum personagem de vídeo game. A estratégia poderia diminuir a realidade sentida durante o filme, mas isso não acontece, fica mais dinâmico, passando a informação de modo rápido e sem perdas narrativas. Outro ponto alto é a trilha sonora e alguns jogos de câmera que nos transportam com mais emoção para dentro do ringue.

★★★★☆

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *