Crítica: Cinco Graças

Por Fernando Boechat
Diretora: Deniz Gamze Ergüven
Elenco: Elit İşcan, Tugba Sunguroglu, Erol Afsin, Ilayda
Akdogan, Gunes Sensoy, Doga Doguslu
Países de origem: França

O filme em questão trata de cinco belas e alegres adolescentes turcas, órfãs, de comportamento tipicamente ocidental, criadas de modo “solto” pela avó. Até que chega um fatídico momento em que, parafraseando uma das personagens, “tudo estava bem, até que, de repente, tudo ficou uma merda”.

 

A cena inicial mostra as meninas saindo da aula com um grupo de amigos e indo à praia, a empolgação é tanta que nem tiram o uniforme para se jogar no mar, uma animação tipicamente infantil ou adolescente, daqueles que querem aproveitar ao máximo o momento e em que tudo é novo e vívido, em especial a sexualidade, nascente e recém percebida. Suas brincadeiras são as mais ingênuas possíveis, ficar jogando água umas nas outras e subir no ombro dos meninos no mar para brincar de “cavalo de guerra”. A partir deste dia a ampulheta é virada e a trama é desenrolada.

Começa todo um murmurinho, nesse remoto vilarejo turco onde elas vivem, em relação ao comportamento “obsceno” das garotas. A partir daí, o tio, um homem conservador e rígido, fará de tudo para discipliná-las e limpar a “vergonha’ que elas trouxeram com seus atos “impuros”.

 

Podemos entender o filme como a história da perda da infância, mais do que da inocência, essa há muito perdida pelos moralistas que as rodeiam, mas ainda preservada em grande medida pelas jovens moças, que veem suas vidas tomarem um rumo inesperado e infeliz através da gestão de seus corpos, tanto pelo tio, quanto pela avó, essa mais afetuosa para com elas, mas mesmo assim incapaz de lutar por suas liberdades.

 

O filme nos mostra um aspecto cultural que nos lembra a do vilarejo de Swat, Paquistão, em que Malala Yousafzai nasceu. Guardando as devidas proporções, há essa virada brusca da infância para fase adulta, que nesses países certamente se dá anteriormente ao nosso, em que, subitamente, meninas (crianças) que brincam com bastante liberdade umas com as outras, são, desde que a sociedade julga que alcançaram determinada idade, enclausuradas e podadas de inúmeras formas.

 

A vigilância e a punição estão ali beirando o ridículo, fruto dessa moral torpe que ceifa vidas. A casa em que vivem se transforma em uma prisão cheia de grades, e só a astúcia e o desvio calculado pode beneficiá-las criando alguns momentos alegres. A brincadeira do “cavalo de guerra”, que consiste em que uma pessoa em cima do ombro de outra tente derrubar a outra que está em mesma situação, é interpretada pela avó das meninas, ao saber por denúncia de uma vizinha que as avistou na praia, como “uma prática pervertida de masturbação no pescoço dos rapazes”. Isso dá o tom dos desafios que elas terão que enfrentar.

 

Se o domínio age no corpo, impondo condutas, normas de etiqueta, aquilo que pode ou não ser dito, é através de práticas corporais que se desenrolará essa batalha. A diretora Deniz Gamze Ergüven parece ter percebido isso muito bem, do qual podemos destacar a simples presença das personagens, da qual faz parte toda uma rede de gestos e comportamentos que funcionam como resistência a esse controle.

 

Outro destaque importante é para a personagem da atriz Doğa Doğuşlu (Nur), a mais nova das irmãs, que, por isso mesmo, é a que recebe menos importância quanto às preocupações de seu tio. Por conta disso, ela tem algumas vantagens, consegue enxergar com um olhar mais distanciado o que ocorre em sua casa e teve menos tempo para se modelar de forma conformista aos valores estabelecidos. O que, aliado à sua sagacidade, lhe dá um grande poder de reflexão e ação em seu destino.

 

 

Para concluir, é mais um filme importante de temática feminista, e dirigido por uma mulher, que aparece nos cinemas. Parece ter se inspirado em boa parte no primeiro longa-metragem de Sofia Coppola. É também a aposta da França para concorrer a “melhor filme estrangeiro” do Oscar de 2016.

★★★★☆

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