Crítica: Pauline na Praia

Por Philippe Torres
Eric Rohmer – França
Elenco: Amanda Langlet; Arielle Dombasle; Féodor Atkine; Jason Rosette; Marie
Bouteloup; Michel Ferry; Pascal Greggory; Simon de La Brosse.
Filme: Pauline na Praia
 

É, talvez, compreensível o esquecimento de Eric Rohmer figurando entre os grandes diretores de seu tempo na França. Suas narrativas nada convencionais prendem-se a um realismo poético que, apesar, adentram na psicologia comportamental humana e desconstrói utopias. É compreensível porque seu cinema, apesar de diferente – como pedia o rótulo da Nouvelle Vague – conta histórias que, a princípio, seriam desinteressantes, banais, mas a capacidade de ir além do que a câmera (ou os olhos) podem ver engrandecem sua obra.

Pauline na Praia não é diferente. Como de costume, no primeiro ato temos a apresentação dos personagens, onde nos deparamos com Pauline (Amanda Langlet), uma menina de 15 anos que passara algumas semanas com sua linda prima, Marion (Arielle Dombasle), na praia. A premissa poderia prender-se ao trivial, adolescência, ritos de passagem, psicologia infantil, mas é muito mais que isso.

Acumulando funções de diretor e roteirista, Rohmer compõe uma poesia visual permitida por seu roteiro repleto de diálogos certeiros, não há inutilidade nestes. Como dito, utopias são desconstruídas, principalmente quando se refere a uma das perguntas mais recorrentes na filosofia: “O que é o amor?”.

Pois bem, são cinco os personagens que vão dar desenvolvimento a narrativa.  Após uma incrível sequência sobre a percepção de cada um dos personagens sobre o amor, conseguimos adentrar o psicológico destes e entender suas motivações. Pierre (Pascal Greggory), apaixonado por Marion. Marion, sonhadora, utópica, apaixonada por Henri (Féodor Atkine). Henri, desprendido, é reciproco a Marion, mas não o suficiente para estabelecer o amor utópico. Pauline, por sua vez, está descobrindo o sentido da palavra e fica com Sylvain(Simon de La Brosse). A partir daí o filme demonstra-se como uma enorme ciranda de relacionamentos que revelarão parte da essência humana.

Em termos técnicos, a narrativa lenta e sem muitos movimentos de câmera nos surpreende ao prender-nos em uma história tão comum. Queremos saber a todo instante o que vai acontecer e conhecer a fundo cada um dos personagens. Como vai se resolver, ou não, o mal entendido e adentrar àquela loucura. Todo esse envolvimento é natural, a narração é imagética, não há presença de trilha sonora marcando e direcionando os sentimentos.

A fotografia é sóbria, sem muitas alterações em termos de luminosidade, sombras e contraste. A saturação é natural, permitindo ambientes mais esverdeados – como a casa de Marion – e mais neutros, vazios, como a casa de Henri. A opção técnica traz naturalidade à imagem como de costume nas histórias de Rohmer. A composição se completa, então, com um enquadramento preciso à medida que não privilegia qualquer personagem em cena.

Por fim, imperdível. Em um filme de Eric Rohmer o material nunca são as certezas, mas as dúvidas que se instauram sequencia após sequência através das intrigas envolvendo um dos sentimentos primordiais. Uma bela e banal história da vida cotidiana.

 

★★★★★★★★★★ – Nota: 10

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