Crítica: O Incrível Exercito de Brancaleone

Por Philippe Leão
Filme: O Incrível Exército de Brancaleone
Direção: Mario Monicelli
País: Itália
Elenco: Vittorio Gassman; Barbara Steele; Catherine Spaak; Folco Lulli; Gian Maria Volonté; Maria Grazia Buccella.

Grande clássico do cinema italiano, O Incrível Exército de Brancaleone é também um dos maiores filmes de Mario Monicelli, mestre da comédia em seu país e história. O ano é 1.000 d.c, um bravo cavaleiro parte da França para tomar posse de suas terras. No caminho, este é assaltado e assassinado por foras-da-lei que roubam a escritura e decidem ir atrás do feudo em questão. Para isso, eles precisariam de um cavaleiro para partir nessa jornada, encontrando no atrapalhado Brancaleone de Nórcia a pessoa perfeita.

O filme resgata a essência do espírito da Baixa Idade Média, um prato completo para professores de história. É a primeira vez que um longa-metragem retrata o período da maneira como realmente foi: sujo e decadente, utilizando um humor negro bastante peculiar para, de maneira bastante prazerosa, contar, narrar os acontecimentos da jornada do herói. Trata-se de uma paródia de Dom Quixote de Cervantes que, porém, não nega autoralidade.

São diversas as passagens que remontarão à época. Há como toda narrativa deve ser, um transporte de tempo do passado ao hoje, de maneira bastante fidedigna, porém, satirizada, ficcional. São demonstradas através de uma fotografia suja – o que não é um aspecto negativo, afinal, contribui com o que planeja ser contado – a decadência das relações sociais no mundo feudal, o poder da igreja católica nos mais diversos aspectos, a cisma pela conquista do oriente, o grande medo da peste que se alastra e a ameaça turco-otomana.

A história da loucura de Foucault é debatida, também, de maneira bastante humorada. Segundo o filósofo, na Idade Média a loucura era tratada de maneira positiva, sendo os loucos visionários. Essa afirmação é evidenciada pela passagem do missionário que deseja chegar à terra santa em nome de Deus. Profetizando palavras e discorrendo sobre missões que nem o mais louco dos loucos do nosso tempo seguiria, mas que àquela época era divino. Os heróis juntam-se ao missionário em determinado momento e, a partir daí, percebemos diversos obstáculos no caminho dos fieis ao oriente. Pontes não muito confiáveis que os seguidores, convencidos pelo missionário, devem atravessar. “A ponte está sendo segura pelas mãos de Deus”, diz o profeta, entre outras situações.

A jornada dos heróis parece interminável. Assim propõe-se. A narrativa dá voltas, desvios através de linguagens que esculpem o tempo de maneira que nos conta séculos em apenas duas horas. Brancaleone e seu exército querem as terras prometidas pela escritura, mas, por diversas vezes, o alvo de desejo se modifica: fortunas que seriam prometidas pela venda de um prisioneiro e a promessa de levar uma donzela a seu prometido, o encontro com o missionário, a chegada em uma cidade fantasma devastada pela peste e etc. Assim, a narrativa torna-se a busca pela busca, que nunca será encontrada.

O Incrível Exército de Brancaleone é o trabalho que melhor conseguiu ridicularizar o conceito de honra dos livros e filmes medievais, onde vemos heróis sempre muito grandiosos, que nunca nos fizeram questionar se realmente fora assim, ou se não havia algo diferente. Seriam todos os nobres cavaleiros medievais poderosos e destemidos? Após Brancaleone, como diz a própria capa do filme, nunca mais verás O Senhor dos Anéis com os mesmos olhos. “Branca, Branca, Branca ! León León León!”

★★★★★★★★★★ – Nota: 10

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *