Crítica: A Pequena Morte

Por Fernando Boechat
Diretora: Josh Lawson
Elenco: Bojana Novakovic; Josh, Lawson; Damon Herriman; Ben Lawson; Kate Box; Lachy Hulme
País:Austrália

Há uma certa dificuldade em enxergar a sexualidade com naturalidade, dificuldade essa que existe em nossa sociedade e se reflete naturalmente no cinema. Muitos filmes retratam a sexualidade por um ponto de vista exclusivamente masculino, com seu velho desejo fantasmático de possuir determinada mulher que, na vida real não existe, apenas em suas projeções mentais. Não sou desfavorável a essas abordagens, pelo contrário, acredito que as coisas que existem devem ser mostradas, mas privilegio sua exposição crítica, que favoreça uma reflexão sobre nossas “patologias” relacionais.

Outras abordagens padrões transformam o sexo, em filmes adolescentes como American Pie, em uma grande festa completamente ausente de significado interior. Onde a única meta é perder a virgindade antes de se chegar à faculdade ou se tornar o garanhão que baterá todos os recordes em número de trepadas.

 

O filme em questão está definitivamente alguns passos a frente das abordagens mencionadas. A trama trata sobre alguns casais que estão com dificuldade em suas relações sexuais. Muitas vezes apenas um dos parceiros está se sentindo bem, dando vazão a seus desejos, e o outro não. Dentre os casais apresentados sempre existe algum fetiche em jogo, um prazer que se manifesta em alguma fantasia específica, que nos casos apresentados seriam a única forma de prazer em que eles conseguem se realizar de fato.

 

A fantasia é um tabu que, ou é contada com muita dificuldade por quem a possui ou é dissimulada encontrando meios não convencionais para serem realizadas, sem que seu parceiro sequer saiba que a está realizando. O que demonstra uma dificuldade de diálogo, que é bem aproveitada em seu lado cômico pelos meios inusitados de se alcançar esse prazer. Nas cenas iniciais do filme são apresentadas de maneiras bem didáticas esses fetiches, com cartelas nominando o que seria um desejo por pés, por interpretar ser outra pessoa enquanto faz sexo, etc…

 

Esse excesso de didatismo de fato me incomodou um pouco. Mas convenhamos que é uma comédia e que seu objetivo não é alcançar a verdade ou a profundidade maior que o sexo poderia revelar para nós, mas sim fazer o público dar umas risadas. Nesse sentido ele realmente conseguiu, todos ao meu redor riam das situações sexuais inusitadas e de alguns punch lines bem executados durante as cenas, inclusive eu.

 

Há um aspecto mais profundo dentro desse filme, que tenho para mim como a parte mais preciosa que podemos extrair dele. A maior parte do filme é focada em casais tentando reestabelecer o bom relacionamento que já tiveram um dia. Disso obtemos as cenas em que os desejos são mostrados visualmente, como uma boca chupando um pé e expostos em cartelas dizendo o nome específico da “tara”. E também a procura de alguns casais a uma terapeuta especializada em reconciliações amorosas, que diz aquilo que já esperamos ouvir. Coisas do tipo: “Vá para casa e liberte suas fantasias sem medo”.

 

O que há por trás disso é a memorável incapacidade de realização do desejo, seja a do outro como a do desejo próprio. Disso me recordo da dissertação que nosso querido filósofo e psicanalista Slavoj Žižek realiza no filme “O guia perverso do cinema”, falando sobre a natureza fantasmática do desejo e de como podemos, sem que nada tenha de fato ocorrido materialmente, nos desligarmos daquela sensação de prazer durante o ato sexual, fazendo que o ato fique completamente desinteressante de uma hora para outra sem nenhum motivo aparente.

 

O que o autor quer dizer é que em certos momentos podemos “sair do clima” sem motivo aparente. Isso significa um desligamento do prazer na nossa relação sexual por um curto-circuito do nosso desejo, uma “distração” que faz com que percamos o intermediário fantasmático que nos possibilita o prazer diante do outro.

 

Discordo de que essa seja a única maneira possível que uma relação sexual possa ocorrer, mas de fato é uma bem presente nos casos abordados no filme, principalmente quando um parceiro tenta satisfazer o outro de forma literal em seu desejo. Temos aqui a célebre frase de Zizek que diz que “nada mais próximo do pesadelo do que o desejo realizado em sua forma literal”. O contexto em que foi dito se referia exatamente ao que um homem tentava realizar as fantasias sexuais da mulher, que tinham sido descritas para ele em detalhes em uma carta.

 

O que ocorre é bem óbvio aqui, a realidade quando tenta encenar o desejo o transforma em algo ridículo, traumático, que se volta como uma acusação ou vingança para aquele que quis exprimí-la e ousar realizá-la. Ou seja, se torna impossível de se realizar em tais termos.

 

Retomemos aqui um ponto importante. Esse saber poder que catalóga as fugas da normatividade, que Focault nos ensinou se tratar de um modo de catalogação dos desviantes para encarcerá-los em instituições disciplinares, é tomada aqui com outro propósito.O que outrora fora um tempo de “caça às bruxas” agora se mostra outra coisa. Não se trata mais de caçar os desviantes, mas de integrá-los nesse saber médico.

WTF! O que isso tem haver com o filme?! Não se trata mais de excluir os sonófilos e os podólatras da possibilidade de conjugação carnal, mas sim catalogar suas taras e encenar situações, mediadas pelo aconselhamento médico de uma especialista, que no fim esvaziará por completo a realização do gozo.

 

Esse é um ponto que poderia facilmente passar desapercebido por um olhar distraído. Mas que quando é percebido proporciona um gosto a mais no final do filme, em que são abandonados aqueles casais que nos acompanham por quase o filme todo. A última história é a de uma mulher que trabalha em uma empresa de telefonia, servindo de intermediária via skipe de mudos que se comunicam por linguagem de sinais com ela e que ela traduz em palavras para pessoa do outro lado da linha.

 

A ligação mostrada é bem peculiar, ela tem que servir de tradutora de um rapaz para uma ligação de tele sexo. É com certeza a melhor cena do filme, além de engraçada ela consegue ser bem sensível e mostrar como pode surgir o envolvimento de duas pessoas, estranhas uma a outra, através de um acontecimento singular. É justo no momento do filme em que nada é cobrado ou esperado que a relação entre duas pessoas parece mais prazerosa.

 

Uma lição potente de como a alteridade, esse estranhamento inevitável que qualquer olhar atento pode captar ao entrar em contato com o outro, pode trazer a vontade de um interesse e aproximação. Aqui não cabem os velhos chavões de que “os opostos de atrem”. Mas cabe dizer que a atração é possível e que ela tem um gosto inocente e infantil, que desfere sobre a vida um olhar que nada cobra e que em nada se identifica, extraindo prazer justamente desse mistério que se desvela fragmentário em sua pupila.

★★★☆☆

 

Um comentário em “Crítica: A Pequena Morte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *