Crítica: As Sufragistas

Por Fernando Boechat
Diretora: Sarah Gavron
Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Meryl Streep
País: Reino Unido

 

Desafiar a ordem vigente é sempre algo doloroso e traumático, muitas vezes podemos nos sentir culpados por desconfiar dos valores que nos foram repassados e que ainda estão presentes em todas as pessoas próximas que nos circundam e a quem nós amamos ou temos estima. Sendo assim, essa luta pode acabar se transformando em um conflito onde não desejamos, no seio de nosso lar.

 

Esse é o drama de Maud Watts (Carey Mulligan) que, por força do acaso, acaba entrando em contato com “As Sufragistas” progressivamente até se tornar uma. Seu primeiro contato, como o trailer já nos deixa implícito, é em um momento de distração, em que olha encantada para uma loja de luxo onde são exibidos belos bonecos vestidos elegantemente por trás da vidraça. Tais imagens lhe remetem, mesmo que por pouco tempo, a um deslocamento de sua condição miserável nas fábricas em direção a um mundo mais belo, onde ela, seu marido e filho pequeno poderiam levar uma vida mais próspera. Felizmente o estrondo se faz e a vidraça se parte em frente aos seus olhos. Apedrejada com vontade por mulheres que não pretendem deixar se enganar por falsas promessas; mulheres que lutam por uma causa de modo pacífico há tempo o suficiente para perceberem que precisam radicalizar seus atos para ganha uma voz política, e assim o fazem.

 

A quebra da vidraça é, portanto, simbólica na estória da personagem, porque remete a primeira ruptura em relação à realidade. E também um ataque efetivamente simbólico a que se pretendem essas mulheres em sua militância por direito igual ao voto, atacando os símbolos da opressão de sua causa e ganhando visibilidade pelas ações diretas. O filme não mostra com riqueza de detalhes o discurso dominante dos homens para legitimar sua violência contra as mulheres. Ao invés disso os mostra como um fato social.

 

A expressão nos remete ao sociólogo francês Durkheim, que atribui a ela um caráter de “coisa”, algo dado exteriormente ao indivíduo e que exerce coerção sobre ele de modo coletivo. Não uma coerção voltada para um indivíduo específico, mas para todos aqueles que forem contra determinado conjunto de crenças de que compartilha determinada sociedade.

 

A luta é mais bem representada do que a opressão que se reafirma em camadas superestruturais. É mostrado o cotidiano deplorável das mulheres nas fábricas que, além de trabalharem mais do que os homens e ganharem menos, ainda têm que aturá-los e servi-los em casa, em uma nova jornada de trabalho, agora não remunerada.

 

As cores escuras, que ambientam o filme em sua maior parte, e sua sonoridade estridente, só reforçam a semelhança das fábricas com os presídios. A luminosidade é alcançada em suas ações políticas, que mesmo durante a noite não alcança o tom esfumaçado e fúnebre que penetra como um mal nos arredores de onde ela trabalha e vive. O uso frequente de closes aumenta o tom dramático e nossa empatia até com personagens não muito aprofundados na narrativa, reforçando o fato de apesar de haver uma protagonista, o que temos é um drama coletivo que abarca a totalidade das mulheres.

★★★★☆

4 comentários em “Crítica: As Sufragistas

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