Crítica: A Terra e a Sombra

Por Fernando Boechat
Diretor: César Augusto Acevedo
Elenco: José Felipe Cárdenas, Haimer Leal, Edison
Raigosa, Hilda Ruiz, Marleyda Soto
Países: Brasil/Chile/Colômbia/França/Holanda
Um senhor (Alfonso) caminha lentamente carregando sua mala pela estrada de terra em nossa direção até atravessar o campo de visão da câmera, que permanece fixa em um longo plano-sequência. Entre ele e nós há a estrada e um caminhão que o força a sair da pista, para depois retomá-la, e que ofusca por completo a imagem com a fumaça e a terra levantada. Esse plano inicial nos dá a primeira indicação de que existem certas forças materiais que apagam a presença dos homens e que se colocam como obstáculos em seu caminho.

Ao chegar a uma pequena casa de madeira no meio do nada, tomamos conhecimento que ele veio por conta de seu filho que está acamado há meses e não melhora. Nessa casa simples moram seu filho Geraldo, sua nora Alicia, seu neto Manuel, que ele avista pela primeira vez e sua ex-mulher Esperanza, que ele abandonou há anos.

Ele é recebido com distanciamento e até de forma rude por sua ex-mulher, que não tarda a enunciar todos os trabalhos domésticos que deve realizar e todos os cuidados que deve tomar com seu filho que está com problemas respiratórios graves e que não pode entrar em contato com poeira alguma. Enquanto isso ela e sua cunhada seguem uma rotina brutalizante como cortadoras de cana, função anterior do filho antes de adoecer.

A questão de saúde de Geraldo mobilizou toda a família, alterando toda sua configuração e rotina. Forçando as mulheres da família a entrarem no universo masculino do canavial, afastando a mãe de poder aproveitar seu filho pequeno e forçando uma senhora idosa a um trabalho tão desgastante. Muito a contragosto, mas movidos pela necessidade, pedem que Alfonso retorne para ajudar em casa.

Os planos internos são escuros e silenciosos. A penumbra e o silêncio dominam o ambiente quase que em tom de luto respeitoso para com o rapaz moribundo. As janelas e as portas estão sempre fechadas para que não entre poeira, o que se mostra um processo quase que inútil visto a enorme quantidade de cinzas que invadem os arredores por conta das fumaças das queimadas constantes de terrenos próximos. Esse ambiente é contrastado com a parte externa da casa: ensolarada e musicada ao som dos passarinhos. A paisagem é simples e bela, captada de forma magistral pela câmera e indicando que apesar ou além dos problemas e dramas humanos há uma natureza digna de ser vivida. O drama familiar é reflexo de um problema mais grave que advém da tragédia da exploração do homem pelo homem. O médico da cidadezinha nada faz pela recuperação do doente, além de lhe receitar meia dúzia de medicamentos, assim como nada se pode esperar dos contratantes dos canaviais, que exploram seus trabalhadores até o máximo possível sem sequer os pagar meses a fio.

O filme se assemelha mais a um documentário, sempre respeitoso e deixando as imagens falarem mais do que os diálogos, que são bem reduzidos. A janela da casa, que poucas vezes é aberta, mostra sempre um pedaço a menos da paisagem, que vai se extinguindo a olho nu de forma rapinar pela ação exploratória.

A cinematografia é tão bela que acaba reduzindo o impacto político trazido pelos temas expostos, nos capturando mais pela manifestação estética. Alguns planos se assemelham uma fotografia de arte em movimento, daquelas fotografias que já parecem conter em si um movimento. O filme ganhou o prêmio Câmera D’or no Cannes, destinado a diretores estreantes.

Além disso, o personagem de Alfonso, que no início da narrativa estaria mais para um vilão (apesar de não ser a nomeclatura mais indicada), ganha um brilho cada vez maior dentro da trama, abrindo nossa visão de uma forma plural e perspectivista, que não se contenta com maniqueísmos nem com respostas de simples solução. Uma obra realmente bem executada que nos leva a ficar atentos com os próximos trabalhos do diretor. completamente antipoético por revelar de forma expressa aquilo que merecia certo grau de indeterminação.

★★★★★

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