Crítica: 5x Chico – O Velho e sua gente

Por Fernando Boechat
 
Direção: Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein, Eduardo Nunes, Gustavo Spolidoro
País: Brasil
 
 

Por quê “Chico” e por quê “5x”? Foi a primeira pergunta que me fiz e imagino que muitos de vocês também tenham a feito. “Chico” é a abreviação carinhosa do nome Francisco, denota certa proximidade e amizade daquele que assim se refere, dando nos entender que o documentário terá caráter intimista com Francisco. Mas Francisco não é uma pessoa, se refere ao Rio São Francisco e as “5x” se referem simplesmente que cinco diretores irão dar seu relato sobre o rio em cinco estados por ele banhados. Sabendo disso, cabe perguntarmos se a proposta faz jus ao nome e se consegue relatar com a intimidade proposta pelo título.

 

Após as propagandas dos patrocinadores e antes de se desenrolarem as imagens do primeiro curta, temos na tela a presença que se repetirá ao final do filme de uma poesia de Guimarães Rosa:

 

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

 

1xChico. No primeiro curta temos imagens que nos lembram as do National Geografic Channel apresentando a paisagem, mas em vez de planos gerais são captados em primeiro plano uma gota de orvalho sobre a folha de uma planta, uma linda fumaça que dança no crepúsculo da floresta e uma câmera que mergulha violentamente no rio se sacudindo mais do que um peixe prestes a ser pego.

 

É um apanhado de imagens muito bonitas que revelam uma visão não humana do rio e seu entorno, como se fosse a própria presença da natureza se apresentando sem intermediários. Não é de se estranhar que nesse curta não apareça nenhuma pessoa e nenhuma voz humana. Os sons são o barulho da água e o som de batimentos cardíacos indicando uma vida pulsante.

 

2xChico. O segundo tem como foco um grupo de pescadores e suas estórias fantásticas de peixes que comem bezerros, cobras que bebem cachaça, gatos que sabem pescar usando isca e por aí vai… Não fica claro se os pescadores estão deliberadamente de gozação com uma equipe de filmagem ingênua ou se se trata de uma representação arquitetada entre ambos. Os dois personagens principais são filmados em um pequeno barco de pesca enquadrados em plano médio e plano geral médio, colocando o foco neles e desfocando o rio e seu entorno. A finalidade é de ressaltá-los, mas já seriam o foco natural de atenção, se mostrando bem desnecessária a escolha e comprometendo o visual lindo do rio.

 

Acreditando ainda se tratar do mesmo diretor e portanto do mesmo curta, mas sem ter certeza disso, já que não há nenhuma mudança em fade ou cartela anunciando a passagem entre eles, temos a estória da vida religiosa de alguns ribeirinhos. Mostrando o sincretismo religioso que alterna entre uma fé em orixás e santos católicos.

 

Uma das personagens é acompanhada, primeiro em uma festa de rua, e depois no terreiro, vestida de mãe de santo, onde parece encenar com pouca habilidade estar incorporada por alguma entidade. A falsidade da cena lembra o deboche dos pescadores e me faz acreditar se tratar do mesmo curta metragem.

 

O mais grave, a meu ver, é investir no clichê já gasto dos pescadores inventores de estórias fantásticas com mania de grandeza, ocupando uma parte considerável do filme. A mãe de santo também não convence, criando um clima de desconfiança no filme, que pela proposta poderia se aproximar de um filme etnográfico, mas que pela realização até o momento se afasta consideravelmente, apenas reforçando alguns estereótipos.

 

3xChico. Longos planos gerais anunciam o terceiro curta, que retoma a importância do Rio São Francisco agora como um personagem visível na tela, que pode falar por si mesmo. Menos narrativo que o anterior, acompanha em silêncio um pescador em diversos momentos. Com uma fotografia invejável, temos como destaque o passeio de barco pelo rio que é perfurado de baixo para cima por diversos galhos secos de árvores submersas, criando um ambiente onírico.

 

O silêncio respeitoso acompanha o personagem desde a sua volta para casa com poucos peixes até momentos mais íntimos em que o flagramos escovando os dentes antes de sair de casa. Apesar das dificuldades enfrentadas conseguem seguir resilientes e sem desespero aparente, tendo tempo até de festejar de modo simples e prazeroso.

 

4x Chico. Talvez o mais estranho de todos, mas não necessariamente o pior, o penúltimo curta nos apresenta um personagem fantasiado de lampião que se auto intitula como descendente de lampiões e que, com discurso mais crítico que os anteriores, aponta para uma certa inércia de mobilização política contra os desmandos na região, seja na época em que eram dominados por coronéis seja na atualidade onde grandes empresas e barragens afetam a vida do rio prejudicando a vida de todos os moradores.

 

5xChico. Nesse último temos uma tentativa mais pretensiosa. Segue-se filmando de costas um pescador, que aparenta uns sessenta e cinco anos, perambulando pela cidade, passando de forma brusca, de modo que sintamos os cortes com facilidade, para diversos outros planos. Planos como os do rio e suas encostas ou de crianças jogando futebol em um lugar qualquer para depois parecer novamente a câmera acompanhando-o.

 

É feito de modo a não se saber ao certo se as imagens fazem parte de uma lembrança do personagem ou se são apenas imagens carregadas de vida, que contém mesmo que indiretamente uma ligação, como se todos aqueles personagens tivessem uma vida que se funde com o rio e principalmente aquele senhor que já bem vivido e com um rosto sem expressão se confunde com os mistérios do Rio São Francisco. O close efetuado em sua nuca, algo não muito comum no cinema, realça essa indiscernibilidade entre seu rosto de frente ou de costas, pois ao ser encarado de frente seu rosto nada nos revela ou muito pouco.

 

O que era um bom curta-metragem nos decepciona no final, pois passa a recitar a poesia de forma didática dando a entender aquilo que já pela montagem havia conseguido ser expresso. Acontece algo bem curioso, o retorno à poesia de Guimarães Rosa, autor usado como capital cultural pelo filme, tem caráter.

 

 ★★☆☆☆

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