Crítica: Até que a Casa Caia

Por Fernando Boechat
Diretor:  Mauro Giuntini
Elenco: Marat Descartes, Virgínia Cavendish, Marisol Ribeiro e Emanuel Lavor
País: Brasil

Dois corpos deitados na cama, sorrindo debaixo dos lençóis, o casal parece à vontade, mas não está. O filme já se inicia na cena do trailer em que Leila dorme com Rodrigo e ao sair do quarto descobre que a mulher de avental que acaba de servir à mesa não é a empregada, e sim, sua ex-mulher. Uma opção narrativa estranha, pois já abre digamos que gastando uma cena de maior peso dentro do filme antes que possamos nos ambientar com ele.

Um casal aparentemente moderno e bem resolvido. Ela, astróloga. Ele, professor em um cursinho de alfabetização para adultos. Vivem juntos apesar de não serem mais casados, a renda é pequena, possuem uma condição de classe média baixa e têm um adolescente de dezessete anos para criar. Mas o principal que parece mantê-los unidos é o respeito mútuo que nutrem entre si.

A vida interior dos personagens ou não foi bem explorada ou realmente quis passar a impressão de um vazio interior. Porque não faltam elementos que venham a nos ambientar no mundo dos quatro personagens principais, percorrendo em maior ou menor grau o estilo de vida, sonhos, angústias tanto de Ciça, a (ex)mulher; Rodrigo, o ex marido; Mateus, o filho adolescente; Leila, a namorada de Rodrigo.

Ciça é uma mulher esotérica, que tem seu trabalho mostrado com frivolidade, como se sua ocupação de astróloga e terapeuta holística fosse apenas um lifestyle de esquerda nova era, que ajuda a pagar as contas, mas que no fundo nem ela acredita de fato, e repete fórmulas astrológicas para seus clientes sem muita responsabilidade a fim de conseguir o seu dinheiro de forma zen.

Rodrigo é um sujeito apresentado como um idealista, mas que por pouca coisa já se vê corrompido. E logo se vê ligado a uma situação que lhe gera mal estar misturado a um estranho senso de poder que é alimentado pela ambiciosa Leila, que sonha em arranjar um homem rico para deixar o cortiço onde mora.

O filho é um personagem reativo, marcado pelo “pecado” do pai que ao levar sua colega de escritório para casa sem avisar ninguém, e realizar o ato sexual embriagado e a gemidos bem audíveis, instaura uma espécie de corrupção moral que se abate tanto sobre os atos posteriores de Rodrigo quanto de seu filho, que vive confuso em uma situação familiar sem comunicação e aonde seus sonhos de reunir papai e mamãe foram despedaçados a golpes duros.

Os enquadramentos do filme são quase todos em locais fechados, a maioria na casa, aonde o conflito principal acontece. Quando fora de casa se refere a um local que define algum aspecto subjetivo do personagem enquadrado, seja nas reuniões de constelação familiar, que reforçam a imagem esotérica e alternativa de Ciça, seja no cortiço onde Leila mora, que reflete na sujeira e no mal estar do ambiente um reflexo de seu caráter também corrompido.

A pretensão do filme é enorme, além de procurar unir comédia e drama, que já é algo bem difícil de se realizar com qualidade, tenta funcionar em dois níveis, se é que essa é a palavra mais indicada. No primeiro nível estaria um drama familiar que gira em torno da dificuldade de comunicação dentro de casa e uma certa sensação de desorientação que carrega os personagens para um mal estar e solidão. O segundo nível tenta tratar da questão da corrupção e das escolhas em um sentido mais geral, com um apelo moralista de no final se fazer a coisa certa.

Se eu não ressaltei as partes cômicas é porque não as encontrei. Acredito que o uso de estereótipos deve ter sido utilizado para esses fins, mas acabam não provocando muito movimento na face do espectador e além do mais acaba comprometendo o caráter dramático de forma direta, esvaziando uma possível complexidade. Quanto a isso há uma questão ambígua que favorece o filme. Os personagens esvaziados dão em certo sentido um motivo de busca que os leve além de sua condição de falta, não chegando a se resolver dentro da trama, mas podemos pensar que ganham uma possibilidade de busca e aprofundamento em um extracampo narrativo. No sentido de que nada impede que você ao final do filme tente pensar um desfecho, já que conclui acertadamente de maneira aberta.

 ★★☆☆☆

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