Crítica: O Cheiro da Gente

Por Leonardo CarvalhoFrança – 2014

Direção: Larry Clark
Elenco: Lucas Lonesco; Diane Rouxel; Hugo Behar-Thinières; Michael Pitt; Larry Clark

 

 

O começo de “O Cheiro da Gente” é
um pouco da frase popular dos roqueiros do século passado: “Sexo, drogas e
rock ‘n roll”. Diferentes adolescentes são mostrados já na abertura, e
continuam sendo focados ao longo da narrativa.

Mesmo com a duração com menos de uma hora e
meia, os muitos personagens conseguem ser descritos com clareza, conhecemos
seus objetivos e seus principais traços sem que haja diálogos explicando-os.
Bem, é verdade que todos eles estão naquele meio de festas, skate e drogas,
alguns são parecidos, não há dúvidas, mas pequenas diferenças são perceptíveis.
A montagem consegue arrumar esse bolo de personagens em pouco tempo, sempre com
cortes a um deles ou a um grupo deles, quando estão juntos.
Dentre os elementos dessa juventude, além dos
já citados acima, é possível encontrar o celular como um objeto importante, já
que ele aparece muitas vezes como uma filmagem em primeira pessoa, tudo isso
por causa de um rapaz que gostava de filmar os momentos com os amigos e seus
atos. Junto a essa alternância entre primeira e terceira pessoa, pode-se
destacar alguns outros aspectos com grande presença.
Um deles é a música alta. O tempo inteiro ela
aparece, tornando o filme dançante, sem uma trilha musical composta de forma
pontual, mas são jogadas canções o tempo todo, que vai desde o Punk à Public
Enemy e Bob Dylan. O rock é muito presente com a finalidade de marcar a
intensidade e o peso dos ambientes de loucura, com o excesso de drogas e sexo.
Falando nisso, a nudez chega a ser quase um personagem da obra, de tão presente
que ela é, retratando bem o que um grupo de adolescentes com mentes bem abertas
fazem. Muitas vezes os corpos desnudos aparecem bregas, de tão repetitivo que
é, ainda mais que o diretor utiliza isso para poder trazer certa
contemporaneidade, mas escorrega na maior parte dos closes nos seios e nádegas,
tanto os masculinos quanto femininos. Mesmo assim, há partes sensuais, quando,
principalmente, o foco passa a ser em Diane Rouxel, que sem muita expressão,
concede ao filme uma boa atuação, natural como todo o elenco, porém mais
cativante.
As cores vibrantes também aparecem bastante,
com uma diversidade grande entre o claro e escuro, que às vezes aparece
distorcido, como nas cenas em que o celular aparece filmando. Essa coloração se
junta à uma iluminação bastante clara ou aos riscos na imagem para criar uma
ilustração psicodélica. Ao serem juntadas aos enquadramentos tortos e muito
próximos ao suor de cada figura, de cada meio expressivo entre os olhos e as
bocas deles, o meio de loucura é ampliado, quase como um transporte do público
para uma essência semi-drogada.
A naturalidade é bastante presente em tudo o
que foi dito, ainda que tenha uma taxa de nudez bastante excessiva. Mesmo
assim, há alguns problemas entre planos e atuações, que aparecem forçados, como
a cena em que dois garotos que viam um site, tentam fechar a janela de spam,
mas uma guia é aberta automaticamente, mostrando o pagamento por hora que um
garoto de programa recebe. Após observarem isso, ambos têm a ideia de se ligar
ao trabalho de prostituição, o que vai desenvolver boa parte do filme, mas
esses takes primários de impulso dramático, deveriam ser pelo menos um pouco
mais espontâneos.
Mais para o final, no clímax, vemos que
Pacman – apelido de um dos rapazes, é possível imaginar facilmente o porquê
dessa nomeação – possui uma relação doentia com sua mãe, em que podemos chamar
de uma extremidade dentro do que foi mostrado ao longo da história. Essa
relação pode ser vista de maneira doentia, mas pode ser enxergada com olhos de
inocência, ou selvageria e natureza.
Após destacar os principais meios que compõem
a obra, além de enfatizar os principais pontos dentre os positivos e negativos,
fica fácil dizer que o novo longa-metragem de Larry Clark é razoável, recheado
de clichês e que trata de uma temática já bastante vista no cinema pós-anos
1990. Ainda com o mediano carimbado, há na balança, um pequeno saldo positivo
por atingir com a proposta, e pode ser resumido, em poucas palavras, como um
filme sobre um nicho de adolescentes com limites muito avançados – percebemos
isso no que JP faz no final – e uma liberdade que completa bem não só o cinema
no século XXI, mas também a vida desse grupo de pessoas.
★★★★★★½☆☆☆ – Nota: 6,5

Um comentário em “Crítica: O Cheiro da Gente

  • 6 de dezembro de 2015 em 01:14
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    Não é o Pacman que tem uma relação não normativa com a mãe e sim o protagonista da narrativa, o Math.

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