Crítica: O Sabor da Vida

Por Leonardo Carvalho

Japão – 2015
Direção: Naomi Kawase
Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida.

 

Nos primeiros enquadramentos de “Sabor da Vida” dirigido por Naomi Kawase, encontramos o plano detalhe utilizado diversas vezes sobre comidas sendo aprontadas. Como isso não acontece apenas uma vez,  e por parte da introdução se passar dentro de uma lanchonete, percebemos que a história terá algum vínculo ligado à cozinha.

Na história, Sentaro é dono de uma lanchonete, onde serve dorayakis (bolos recheados com pasta de feijão). Um belo dia, uma moça de idade se oferece para ajudar na cozinha em troca de um salário baixo. O rapaz aceita e se surpreende com o passar do tempo, pois Tokue prova ter habilidades e conhecimentos com os alimentos através de uma receita secreta.
A moça recém-chegada no novo trabalho, quase que rejeitada de primeira, concede ensinamentos primorosos ao seu chefe já nos primeiros dias. A pequena lanchonete vai ganhando cada vez mais críticas positivas, que vão se espalhando pelas pessoas de boca em boca. O sucesso se deve à química entre o chefe, bom com as frituras, e a mulher, especialista nas pastas de feijão.
Grande parte da obra se passa dentro da cozinha do restaurante e o que chama mais atenção nisso tudo, não são os preparos das comidas, isso fica como um fundo, mas a ênfase na forma como Sentaro e Tokue conversam sobre os modos de fazer os famosos dorayakis, sempre colocando uma questão reflexiva sobre a vida, principalmente partindo da mulher, sempre quando estão cozinhando. Como o nome do filme já diz, o sabor da vida nada mais é que um jogo de palavras feito entre “sabor”, relacionado à comida e também à vida. Alguns planos vazios – muito do que Ozu fazia em seus trabalhos -, em árvores, em roupas, ou até mesmo na movimentação das ruas da cidade, servem para que o espectador pense naquilo que foi dialogado entre os personagens, ou quando há alguns momentos com voz over, dando certa lição sobre sentidos da vida, mas nada forçado, tudo acontece espontaneamente.
De forma espontânea também aparece a montagem, com uma divisória bem interessante: como foi dito, os planos vazios estão lá para ganhar tempo para o público pensar, mas em outras partes, com destaque para as ações dentro da cozinha, os cortes secos aparecem para que não se perca tempo, para mostrar agilidade do cotidiano dos personagens na cozinha, para que a narrativa flua. O filme todo, na verdade, é bem natural, desde o elenco representando pessoas comuns com dias comuns, até a montagem já falada, e uma trilha musical suave, pontual. Tudo isso concede à história uma sensação de honestidade da diretora em relação ao longa-metragem.
Devido à doença da moça falada acima, as falas positivas vindas dela, ganham ainda mais peso, são bem escolhidas e
encaixadas. Esse diálogo entre cozinha-vida tem um ar poético num filme leve com um ambiente leve, combinando com o estilo da composição. O final se torna previsível, jogando uma carga dramática como um instrumento para emocionar e realçar ainda mais os pensamentos dos personagens.
“O Sabor da Vida”, portanto, é um bom filme, que se assemelha muito à poesia, como foi falado, e também à pintura, pelas belas imagens em um quase silêncio. O filme de Kawase lembra um pouco “O Tempero da Vida”, um filme grego, mas diferente deste, “Sabor” é mais forte, menos movimentado, mais pensativo.
★★★★★★★☆☆☆ – Nota: 7

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