Crítica: Iván

Por Fernando Boechat
Diretor: Guto Pasko
Elenco: Iván Bojko
País: Brasil

Tive a oportunidade de conversar um pouco com o diretor Guto Pasko, descendente de ucranianos, o qual me disse que ao saber da história de Iván Bojko sentiu que deveria fazer algo a respeito, principalmente quando este o contou sua vontade de relatá-la.

A realização do filme se dá de modo artesanal, tal qual o fabrico da bandura produzido por nosso querido protagonista Iván. Dentre as dificuldades relatadas pelo diretor, estavam: a idade avançada do protagonista, que contava 91 anos em seu retorno à Ucrânia; a vastíssima produção textual que este realizara através de seus diários; um longo período de tradução deste material.

Ao confiar seu diário ao diretor, ainda em 2006, Iván não desconfiava que disto resultaria seu retorno à sua terra amada da qual se manteve separado por 68 anos. Esta é apenas uma das surpresas emocionantes a serem registradas pelo documentário.

Tendo sido tirado à força de seu país 1942 para ter que realizar trabalhos forçados na Alemanha nazista, imigrar seis anos mais tarde para o Brasil, tornando-se apátrida.

Nesse longo tempo ausente de seu país natal o meio que nosso protagonista alcançou para manter as tradições e sua memória viva foi através da música, na já mencionada fabricação da bandura, instrumento musical tradicional de origem ucraniana que ele teve o prazer de apresentar ao diretor e à equipe antes de partir.

No ônibus, à caminho do aeroporto, temos planos focando em super close suas rugas, tanto no rosto quanto nas mãos, acentuando a longa espera do retorno e nos indicando ainda nessas marcas de seu corpo uma analogia possível às fortes raízes que carrega em si. Ainda nessa cena temos um close bem realizado em que ele aparece de perfil com o rosto levemente inclinado em direção à janela onde no desenrolar rápido da paisagem, ouvimos em off o som de tiros e bombardeios como se fossem o estrondo que habita em sua memória.

Iván, tal qual Ulisses na Odisséia de Homero, vive uma dura provação e, assim como o herói mitológico, alcança sua inesperada volta para casa após inúmeras tragédias e um longo período distante. Sendo assim, o protagonista consegue nos emocionar tanto por sua história pessoal quanto por ser reflexo de tantos outros que se mantém anônimos e que partilham da mesma tragédia histórica da guerra e da clandestinidade ao se transformar em um apátrida.

Não é de se estranhar que um tema de tal relevância e captado com tamanha sensibilidade tenha conseguido o feito de ser o único filme no Brasil a conseguir o apoio oficial da ONU, que em 2014 lançou uma campanha global denominada “I Belong”, que pretende erradicar a apatridia do mundo em um prazo de dez anos.

Quanto às demais cenas prefiro deixar em aberto para que o espectador possa se surpreender assim como nosso simpático protagonista o faz durante o filme.

★★★★★

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